Resenha – Lirian Ribeiro Monteiro
Em seu artigo, O Teatro Invisível da Etnografia: Princípios Performáticos do Trabalho de Campo, Quetzil Castañeda, busca aprofundar o “fazer” etnográfico do trabalho de campo, tendo como ponto de partida os apontamentos, acerca da etnografia, de Abdel Hernández e Harry Wolcott. Para esta análise, o autor traz para discussão a noção do “Teatro Invisível”, do dramaturgo brasileiro, Augusto Boal e a idéia de “Terapia” de Stephen Tyler.
Iniciando a análise, o autor informa que em uma discussão entre antropólogos surgiu a idéia de que a etnografia deveria se manter longe de uma representação etnográfica e da teorização da cultura. Diante deste ponto de vista houve discordâncias, sendo que alguns antropólogos acabaram por se direcionar mais para uma etnografia cientifica e outros se guiaram para uma etnografia baseada na produção política da cultura. Neste cenário, Hernández cunha o termo “Performativity” e Wolcott “doing”, como formas possíveis de se fazer etnografia.
A partir destes termos, Castañeda abre a discussão buscando compreender o caráter performático e o “fazer” no trabalho de campo para pensar o propósito da pesquisa etnográfica. Segundo Castañeda, Wolcott distingue dois tipos de etnografia, alertando que o “fazer” são atividades e práticas baseadas na imersão enquanto que a “coleta de dados” está baseado na pesquisa que depende de uma rápida, extensiva e compreensiva investigação do fenômeno em uma relativa larga escala com métodos, como: levantamentos, questionários e amostras que podem ser aplicadas sem uma intensa imersão in loco.
Se guiando pelos dois tipos de etnografia apontados por Wolcott, Castañeda traz um outro significado com a idéia de “ser no trabalho de campo”, que seria o “fazer” na concepção de Wolcott e o “fazer”, que seria como a “coleta de dados”. Na visão de Castañeda, no “ser no trabalho de campo” o pesquisador vivencia e no “fazer” o pesquisador realiza, mais especificamente, a coleta de dados. Sendo assim o ser e o fazer no trabalho de campo traz à tona uma distinção analítica que identifica duas facetas da pesquisa permitindo uma análise ontológica da performance do trabalho de campo.
Com a questão inicial do “fazer” de Wolcott e da “performance” de Hernández, o Teatro do Invisível, entra no cenário como um recurso para se pensar o trabalho de campo etnográfico. De acordo com o autor, este tipo de teatro, desenvolvido por Augusto Boal, foi fundamentado na concepção da dialética marxista-hegeliana, cujo desenrolar seria por meio da mudança social revolucionária. O Teatro do Invisível não teria a simples finalidade de representar o mundo no teatro, mas sim mudar o mundo a partir do teatro.
Tomando a noção deste tipo de teatro, Castañeda questiona: “Qual a relação entre o teatro invisível e a etnografia?”. E argumenta que o caminho do trabalho de campo etnográfico pode ser entendido metaforicamente como uma analogia ao Teatro Invisível, como um tipo de performance interativa e forma de arte similar ao teatro de rua. “Se a performance artística de Boal pode ser entendida como um cenário dos princípios, então o trabalho de campo é uma forma, um modo e uma manifestação específica do teatro invisível”. (Castañeda, 2004: 77). O autor ainda argumenta que o trabalho de campo é um modo de teatro invisível, no entanto se diferencia da arte performática de Boal no que tange a sua estrutura, concebida dentro de uma disciplina específica, na lógica teórica e institucional da antropologia, sociologia e estudos sobre a cultura.
Para explanar os princípios do Teatro invisível, Quetzil Castañeda ilustra como ocorre a performance ao dizer que um grupo de atores improvisa um texto que será encenado em espaço público. O drama é baseado numa polêmica social que preocupa a comunidade. O roteiro gira em torno de um cenário provocante, interagindo com o público onde as diferentes emoções, posições, e ambivalências da questão social são apresentadas, provocadas, reveladas e debatidas. A performance é chamada de invisível porque os atores assumem o papel de todos os personagens e não anunciam à platéia que ela é testemunha do drama, que é, no entanto, improvisado. (Castañeda, 2004: 78).
Além do Teatro Invisível, o autor também se refere a “experimentos de ruptura” de Garfinkel, que seria um tipo de teatro invisível ou forma de “pesquisa invisível”. Ainda alerta que há dois tipos de “ruptura de experimento” que podem ser distinguidos na etnometodologia. A “pesquisa de ruptura”, que é construída e conduzida de forma a compreender aspectos mais amplos da realidade social, sendo que este experimento envolve “uma extensiva encenação, que é a preparação física, a criação de um cenário e uma rigorosa elaboração dos roteiros” (Castañeda, 2004: 78); e a “ruptura pedagógica” que é construída e conduzida principalmente como meio para que os estudantes compreendam os princípios básicos da etnometodologia, “estes, portanto, envolvem uma mínima representação, somente a apresentação cotidiana do ser que ocorre naturalmente no cenário social”. (Ibidem, 2004: 79).
Neste tipo de experimento pedagógico da etnometodologia, apresentada por Garfinkel, o pesquisador permanece invisível assim como ocorre com os atores no Teatro Invisível de Boal. Sendo assim, Castañeda suscita que a etnografia, especificamente o trabalho de campo, é também um teatro invisível. Mas questiona o que é fazer o trabalho de campo e quando o pesquisador “faz” ou não. Assim como, acrescenta que os pesquisadores, sobretudo aqueles que “estão no campo” sempre questionam a si próprios e suas práticas no campo. Diz ainda que o trabalho de campo etnográfico não se mostra sempre, ou usualmente, muito claro no que é ou em que momento ele está sendo realizado, “especialmente quando a pesquisa é principalmente baseada na observação participante, em entrevistas informais e outras atividades de práticas cotidianas”.(Ibidem, 2004: 79). Portanto, “a invisibilidade do trabalho de campo assim como a etnografia tem precisamente um relacionamento com a prática de pesquisa no cotidiano”. (Ibidem, 2004: 79).
Ao falar sobre o “Spect-Actors” o autor faz uma analogia com o etnógrafo que, ao mesmo tempo em que observa, também atua. Citando Boal, quando este diz que a relação entre o ator e o espectador invoca imediatamente a observação participante, define que a metodologia da observação participante é uma forma de teatro. “Isto é, trabalho de campo - a arte de olhar a nós mesmos”.(Castañeda, 2004: 80). Diz também que o que se mostra essencial no trabalho de campo não é somente a relação entre este e o teatro, mas o “fazer no trabalho de campo” e a vida cotidiana, pois os etnógrafos conversam, se movimentam, se vestem de acordo com o cenário, expressam idéias, revelam paixões, assim como fazem na vida diária. É a partir desta concepção que se pode pensar o trabalho de campo como um tipo de teatro.
Boal apud Quetzil Castñeda diz que “A única diferença é que o ator tem consciência que está utilizando a linguagem do teatro”. (Castañeda, 2004:81). Para Quetzil o mesmo ocorreria com o etnógrafo, sendo assim, deduz que a linguagem do teatro, da etnografia e da etnometodologia estão entrelaçadas. O ator assim como o etnógrafo vivencia o cotidiano, mas se utiliza a linguagem do teatro e da etnografia, respectivamente, para observar-atuar com o que Boal chama de “Audiência Emergente”.
A Audiência Emergente a que Castañeda se refere como constituinte tanto do Teatro Invisível de Boal quanto da Etnografia, implica também na auto-seleção do sujeito na participação no teatro ou na pesquisa. No caso do trabalho de campo as pessoas a quem o etnógrafo direciona sua pesquisa participam ativamente, sendo hora intérpretes, críticas, informantes, assistentes ou até mesmo inimigas ao processo de pesquisa. Como diz o autor “A audiência emergente envolve um complexo processo de auto seleção em que cada sujeito determina a qualidade, natureza, e tipos de engrenagem com o pesquisador”.(Ibidem, 2004: 85).
Na “Ficção real da ficção científica e a Teleologia da mudança”, Castañeda ao citar novamente Boal, quando este diz que o teatro invisível não é realismo, é realidade e que o espectador é transformado em protagonista na ação, diz também que o teatro invisível da etnografia é realidade, pois o trabalho de campo é real e seu roteiro está na ordem de métodos práticos, procedimentos, prazos e esquema em que os tipos de informação são produzidos, comunicados, documentados, analisados e manipulados. Segundo Castañeda, o “problema de pesquisa” são modelos ideais que procuram intervir ativamente no mundo para realizarem-se, tornarem-se realidade, e não apenas com o objetivo de saber ou escrever, mas também de mudar, de provocar o pensamento, assim como para Boal “O objetivo do teatro invisível é desencadear o pensamento, dialogando e conscientizando e na audiência emergente a ação provocada será orientada para a mudança do mundo”. (Ibidem, 2004: 89). Este “desencadeamento” é também provocado no trabalho de campo na relação do pesquisador com o pesquisado, pois se constitui na dinâmica desta interação.
Esta concepção de “mudança” que tem uma função ontológica do trabalho de campo, Stephen Tyler chama de terapia e que a própria etnografia seria como uma terapia, pois a “etnografia é um objeto de meditação que provoca ruptura com o senso comum e provoca uma integração estética em que o efeito terapêutico é trabalhado fora do senso comum”. (Castañeda, 2004: 92).
Em “Formando o trabalho de campo: Cenário e Instalação, o autor, baseando-se em Goffman, diz que o cenário, assim como o cotidiano, é contínuo, fluído e coletivo. Como princípio metodológico, o “cenário” é uma tática utilizada para se fazer trabalho de campo. Além disto, há o que Castañeda chama de “instalação”, que é uma estratégia de organizar os métodos a serem utilizados com o objetivo de coletar as informações necessárias ao tipo de pesquisa”.
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