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sexta-feira, 12 de junho de 2009

The Hidden Side of the Moon


LEIBING, Annette. The hidden side of the moon, or, “Lifting Out” in Ethnographies. In, McLEAN, Athena and LEIBING, Annette (editors). The Shadow Side of Fieldwork: Exploring the Blurred Borders between Ethnography and Life. Malden and Oxford: Blackwell Publishing, 2007 (pp. 138 a 156).

Por Taíse Chates

O texto “The hidden side of the moon, or, “Lifting Out” in Ethnographies”, de Annette Leibing, discute o tratamento de dados etnográficos que normalmente não são percebidos, daí o motivo do título “o lado oculto da lua”. Faz-se necessário apontar a diferença entre um dado invisível de um outro dado que não é visto num momento determinado por conta de motivos diversos. É a percepção desses dados, que podem não ser percebidos num momento mas podem ser em outro, por conta do olhar diferenciado do antropólogo, que Leibing discute em seu texto.

A autora coloca que começou a pensar sobre a questão dos “dados na sombra” a partir de uma visita a Berlim, quando comprou um livro de Walter Benjamin, que por sua vez usa um termo de Theodor Adorno para falar sobre “um segundo de iluminação lunar ou mundo paralelo”, algo que inexiste durante o dia. Daí, ela fala do filme de Robert Lepage, no qual o personagem do filósofo Philippe pode ver melhor a si mesmo numa “luz interior” diferente após a morte de sua mãe, o que causa ao personagem uma reflexão sobre a sua vida atual e a de seu irmão. Assim, a autora traça um paralelo entre a sombra do regime de Hitler (quando Benjamin escreve sobre sua infância em Berlim) e a morte da mãe do personagem de Lepage, exemplificando como um novo colorir do passado pode mostrar questões não vistas ainda. A partir desse contexto, o interesse da autora para escrever o artigo surgiu quando a mesma escreve sobre o “invisível”, com o aumento da atenção e da “coloração emocional” em relação à percepção do mundo ao viver e fazer a pesquisa. Essa foi a inquietude pessoal que originou o artigo.

Sobre a categorização emocional, Leibing viveu mais de dez anos no Brasil, o “país dos contrastes” e destaca três períodos nesta vivência: 1) de fascínio com os sorrisos, com a facilidade de comunicação e com a sensualidade; 2) de decepção com a vida cotidiana; 3) de modificação de seus valores germânicos através da mediação com a realidade brasileira. A autora conta que viveu um processo parecido, mas muito rápido, quando viveu em Quebec. Assim, ao olhar pra trás, percebe como seu processo de “nativização” no Brasil e em Quebec foi bastante influenciado por sua flutuação emocional e pela sua capacidade de ver e interpretar sua vida, o país em que estava vivendo e seus dados de pesquisa. Tal questão a faz apontar a necessidade de “olhar o passado” ao se analisar os dados coletados, apontando também que há uma tendência do interesse antropológico em torno do exótico na relação com o “outro”, porém, ela preferiu estudar algo ligado ao cotidiano e destaca que essa é uma tendência que vem crescendo na antropologia.

Leibing cita Paula Saukko e a noção de “subjetivismo emocional”, que se configura como a exploração de experiências íntimas e auto-biográficas. Daí, defende que a maneira de se posicionar em relação às emoções está imbuída de ideologia e descreve o conceito de ideologia em Althusser como “uma representação da relação imaginária de indivíduos com a real condição de existência” (pp. 141), uma ideologia presente em aparatos e práticas sociais. Ao citar Crapanzano, a autora trata da qualidade emocional de entendimento do mundo e do olhar sobre o passado como algo crucial para se pensar sobre os dados na “sombra”. Esse diálogo com o passado ajuda muito no processo de categorização do “outro” em relação ao mundo.

Ao falar sobre as publicações de Nancy Scheper-Hughes na área de antropologia médica, sobre dificuldades de mães vivendo numa favela em Pernambuco em situação de pobreza extrema e com alta taxa de mortalidade infantil, Leibing fala das duras críticas feitas por intelectuais brasileiros em relação a Scheper-Hughes. Uma dessas críticas foi a de Lygia Sigaud, ao criticar a naturalização de comportamentos de mães com seus bebês e de pessoas pobres com a pobreza. Leibing associa essa leitura de Scheper-Hughes a uma postura envolvida com a “antropologia militante”, filtrando dados a partir de uma perspectiva militante direcionada. Sobre tal questão, a autora fala da crítica de Luís R. Cardoso de Oliveira, que defende que esse tipo de militância parece ter implicações éticas negativas e que essa atitude excessivamente seletiva em relação ao ponto de vista do nativo se mostra como um apanhado de idéias e soluções de um “antropólogo iluminado”. Daí, Leibing aponta que tais argumentos se situam se relacionam com tabus existentes no Brasil e na América do Norte.

Para tratar da aproximação de dados “na sombra”, a autora fala da questão da visualidade no olhar antropológico. Cita Joseph Dumit e como o mesmo defende que os antropólogos enxergam com olhos humanos. Leibing então coloca que a “tecnologia de ver” se liga diretamente com a recapturação de imagens, tendo as mesmas que ser descontextualizadas e posteriormente recontextualizadas. É feita então uma comparação com a tomografia, com a ressonância magnética e com microscópio na biologia e medicina, assim colocando as diferentes maneiras de “ver o invisível”. Daí, conta como Lynn Gamwell traça um histórico do microscópio, de como a evolução do mesmo está relacionada com as novas maneiras de conceituar a visão de modo geral na cultura contemporânea, o que é resultado de um processo de disciplina coletiva. O antropólogo treinado pode perceber essa “tecnologia de ver” diferenciadamente em suas etnografias. Leibing fala da “epistemologia ocular”, uma reflexão sobre as representações produzidas sobre o mundo. É posto o exemplo de Lévi-Strauss, que inicialmente enxerga uma Nova York bonita, poética e um Rio de Janeiro feio e que depois uma outra visão permitiu que Lévi-Strauss escrevesse de novo com mais poesia e metáforas.

Para trabalhar a noção de “Befindlichkeit”, a autora coloca que, em inglês, o “ver” pode significar “entender” (do you understand?: you see?), ou seja, todos os sentidos são envolvidos e não somente a visão. Este “ver” envolve um modo multisensorial de construir e experimentar o mundo de maneira ampla. Leibing aponta que percepção do mundo não pode se reduzir à “visão ocular” ao se referenciar em Heidegger, mesmo colocando que a intensão não é discutir os conceitos de “Befindlichkeit” e “Dasein” de Heidegger. Leibing defende ainda que não considerar a sensação é completamente impossível quando se quer evitar uma cegueira em relação aos dados. É quando ela fala do “lifting out”, levantado pelo filósofo e psicólogo Eugene Gendlin. Para tratar da noção de “lifting out”, a autora descreve que para alguns autores, o “Befindlichkeit” de Heidegger é um estado passivo por causa da noção de “Geworfenheit”, de “lançar-se para o mundo”. Para Eugene Gendlin, o “Befindlichkeit” é uma atitude ativa em relação ao mundo e não necessariamente um estado interior. Para Gendlin, o processo de nominação (ou lifting out) se constitui com elementos sentidos desde uma problemática de recontextualização. Daí, quando esse processo é bem sucedido, o resultado é a revelação de dados que antes estavam na sombra. Slavoj Žižek faz uma construção similar a de Gendlin, usando o romance de Jane Austen, com o exemplo de Elisabeth e Darcy, onde os personagens não são construídos numa base mais real e guiados pelo “amor verdadeiro”, para tratar da incapacidade de ver “o lado oculto da lua”. Leibing volta a citar Paula Saukko, que enfatiza a triangulação de dados, o que envolve a negociação da realidade comum, pois cada perspectiva individual se aproxima do mundo por diferentes ângulos. Daí, Leibing coloca que a nova versão não faz das personagens de Elizabeth ou Darcy apenas boas e nobres pessoas, negando uma visão de “totalidade”, mas que apenas a consideração de novas visões pode trazer à luz novas perspectivas, tais como a incorporação de relações de classe ou de clichês, defende ainda que o “lifting out” pode ser acidental ou circunstancial no romance, em diálogos agonísticos, ou posto de modo forçado em encontros artificiais.

Ao retomar reflexões sobre o olhar em relação ao passado, Leibing descreve a situação em que Scheper-Hughes foi colocada como insensível ao fazer uma análise sobre contexto irlandês no campo religioso, revisando algo que já havia sido estudado. A autora defende que isso se deu por conta de idealismo religioso no julgamento do trabalho de Scheper-Hughes.

Leibing defende que processos de análise que envolvam o autor, mas que não sejam somente sobre ele devem aparecer num novo texto, a não ser que esteja num tópico específico separado. Ela faz algumas exemplificações sobre esse olhar autoral a partir de filme que conta a história da secretária de Hitler assistindo a sua própria história, vendo e comentando os “mecanismos de defesa”, a partir de uma nova visão dela mesma e a partir de um livro de Rabinow, que trata de fatores de “tempo” e “mudança”, da variedade de aspectos no modo de vida no mercado de trabalho em Marrocos, quando as notas do autor apontam que não se chega a uma “verdade final” e que os dados se ligam aos sentimentos do antropólogo. Assim como Gendlin, Rabinow fala de contradições, erupções e interrupções na comunicação. A autora relaciona essa análise as suas experiências no Brasil e em Quebec e como se dá o seu processo de “olhar para trás”.

O texto é finalizado com uma crítica a um maniqueísmo de colocar algumas práticas como boas ou más e defendendo a necessidade de se fazer uma análise circunstancial, levando em conta questões sociais. O “jeitinho brasileiro” é posto como exemplo, no qual a tentativa criativa de evitar problemas pode estar relacionado com um significado inesperado diante de determinadas situações. Leibing coloca que talvez a busca pelo lado oculto da lua precise do conhecimento do lançar-se para o mundo, com valores e categorias que sejam melhor iluminadas.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Projeto


F. Calvo, In Enciclopédia Einaudi, vol. 25.Lisboa: IN/CM, 1992.

por Ana Magda Carvalho

Sentido amplo: antecipação. Uso proeminente na Arquitetura – sua conotação referencial “prejudica irremediavelmente a compreensão de suas fundamentais implicações ontológicas (58). O autor deste verbete dispensa, no entanto, uma análise histórico-lingüística do termo, do étimo. Prefere navegar nas águas tornadas duras [não macias], da filosofia ocidental, de seu préliplo desde os gregos até a contemporaneidade, na “era da open society”e as implicações disso tudo para com o que se foi feito do sujeito e de sua subjetividade, seu “projeto”, de lá para cá. Procederá, daí, a uma espécie de exegese, aqui uma autêntica hermenêutica de iniciados?
[[EXEGESE: Do gr. exégesis. S. f. 1. Comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra. 2. P. ext. Explicação ou interpretação de obra literária ou artística, de um sonho, etc. [Dicionário eletrônico – Aurélio B. de Hollanda]].

O autor defende a idéia de que a leitura ontológica do conceito pode fazê-lo ir além de sua aplicação estritamente arquitetônica – transformar idéias (abstratas) em coisas concretas (sensíveis). Busca um “por quê, a matriz ontológica do conceito” (ib.). As questões históricas seriam: quando e porque se vislumbra no pensamento ocidental a possibilidade de algo como um projeto? Que significados devemos atribui à descoberta de eventuais variações do valor ontológico desta idéia? (58).

Salienta, em sua busca pelos fundamentos ontológicos do conceito de projeto, alguns de seus traços estruturaisfuturo (horizonte de temporalidade); possibilidade – estes já conferem a matriz fenomenológica de tal idéia (59). Terceiro traço: antecipação. “Projeto é, pois, uma antecipação do vir-a-ser de algo que, relativamente ao futuro, pode ser qualificado como possível” (59). Tal idéia, no entanto, parece “de todo estranha” a uma “concepção rigorosamente determinística do real” (diferente e oposta, aparentemente, à outras, tais como as categorias “necessidade” e “impossibilidade”. Estará o projeto justamente entre elas?). O homem caracteriza-se, pois, por sua capacidade de elaborar projetos, de antecipar, planejar, programar, especular o futuro. Na exis (ação), o homem já é possível, mas ainda não real, vindo a ser plenamente. Ou não: “...este pode-ser e pode-não-ser representa a indizível disponibilidade desse futuro relativamente ao qual o projeto antecipa”.

Portanto, o imperativo categórico-desterminístico “dever-ser” destrói, por assim dizer, a idéia de “projetualidade” – seria esta propriamente o devir? [Devir: do latin devenire - vir a ser; tornar-se; devenir. Devenir: “transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem noutras coisas; devir, vir a ser”. (Aurélio, op. cit.)]. Assim, a previsão ou pre-constituição da possibilidade é fenômeno “essencialmente ligado ao agir humano” – agir técnico, ético, ou teorético. A projetualidade, diz o autor, sempre teria sido um embaraço para os gregos, artífices do Logos, da Razão. Aqui projetualidade traz em si outro embaraço, o da subjetividade. Mas para o autor, os gregos são culpabilizados, injustamente, de terem separado radicalmente a razão da razão e as razões do sensível, o subjetivo e o objetivo, o caos e a ordem, os deuses e os homens. Os próprios gregos, sugere o autor, eram diversos em suas cosmovisões, subjetividades, projetos, devires. Havia Sócrates e seus discípulos, e antes deles os “pré-lógicos” “pré-socráticos”, e havia também os sofistas. Depois vieram os estóicos, os epicuristas, os escolásticos, os medievais, os renascentistas, os modernos, os nominalistas, os racionalistas, os empiricistas, os universalistas e os particuliristas, e chegamos, por fim, ao sujeito contemporâneo, aqui sim, diz o autor, confundido irremediavelmente em sua irredutível subjetividade - esta separação, portanto, é obra construída na longa duração... –. E também entre o “agir técnico” e o “agir ético” (por que e para quem mesmo que os homens projetaram a bomba atômica?). A práxis (a ordem da necessidade das coisas) teria destruído de vez qualquer ética, qualquer política – no sentido originalmente grego, de acordo com Hannah Arendt? Para esta pensadora, o século XX inventou a (des)razão instrumental, reinventou a violência instrumental- e esta destruiu a política. Somos reféns, diz Hannah, de uma ultra-tecnocracia – o reino dos que fazem bombas, mas que não conseguem pensar politicamente... Asim, uma (des)ordem de pensamento correlato, corresponderia, neste caso, ao da já mencionada filosofia da open society, o pós-modernismo (ou a modernidade líquida de Bauman), exercendo-lhe forte fascínio a idéia de “indeterminação do futuro”, que “se traduz numa completa disponibilidade do real para o investimento das decisões humanas” (65).

Por fim, em seu último baluarte pré-pós-moderno, encontramos Martin Heidegger. Heidegger, pergunta Calvo, “é o pensador que entre todos, mais repetidamente retoma e insiste justamente nesta palavra ´projeto´?”. Sim, tudo indica: “O pensamento antes deve se abrir para o sentido da diferença ontológica entre o ente e o ser... (95).

“Tal exis [atitude] fundamental assume em Heidegger o sentido de uma projetualidade ec-statica do Ser (Da sein) humano, qual constante antecipação de si pela sua possibilidade mais autentica e autentificante: a morte. Assim se lê em Ser e Tempo: ´O que caracteriza o ser-para-a-morte autenticamente projetado no plano existencial pode-se resumir assim: A antecipação revela ao ser a dispersão de si próprio [o banal inautêntico do ´quotidiano médio´] e, subtraindo-o a fundo ao cuidar de cuidar, põe-no diante da possibilidade de ser ele próprio, numa liberdade apaixonada, liberta de ilusões do Si, efectiva, segura de si mesma e cheia de angústia´”. (96)

O autor, no entanto, encerra o verbete com palavras sombrias, decretando a contemporânea morte da categoria “projeto”, em um momento no qual essência e existência são colocados em lados apartados, onde o “intelecto cauculante” (Heidegger) produz uma “des-mitizização do mundo”. Parafraseando Tales de Mileto, o mundo [ocidental e ocidentalizado] tornou-se vazio de deuses? Tal des-mitização, por fim, “...impõe, na previsão (hoje garantida pela projetualidade tecnológica) total de um mundo, o obscurecimento do manifestar-se do fundamento na presença (determinação) do ente. Deste modo a confiança do hodierno Fausto no futuro é tão inconscientemente óbvia que ele já nem mesmo precisa do streben: confiando, ele se confia e se abandona ao projeto do ser que o ´saber´ para ele sancionou. Mas se o futuro se obscurece, se o projeto como verdade do ser vacila, então é o desespero e a desconfiança.” (98).