
F. Calvo, In Enciclopédia Einaudi, vol. 25.Lisboa: IN/CM, 1992.
por Ana Magda Carvalho
Sentido amplo: antecipação. Uso proeminente na Arquitetura – sua conotação referencial “prejudica irremediavelmente a compreensão de suas fundamentais implicações ontológicas (58). O autor deste verbete dispensa, no entanto, uma análise histórico-lingüística do termo, do étimo. Prefere navegar nas águas tornadas duras [não macias], da filosofia ocidental, de seu préliplo desde os gregos até a contemporaneidade, na “era da open society”e as implicações disso tudo para com o que se foi feito do sujeito e de sua subjetividade, seu “projeto”, de lá para cá. Procederá, daí, a uma espécie de exegese, aqui uma autêntica hermenêutica de iniciados? [[EXEGESE: Do gr. exégesis. S. f. 1. Comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra. 2. P. ext. Explicação ou interpretação de obra literária ou artística, de um sonho, etc. [Dicionário eletrônico – Aurélio B. de Hollanda]].
O autor defende a idéia de que a leitura ontológica do conceito pode fazê-lo ir além de sua aplicação estritamente arquitetônica – transformar idéias (abstratas) em coisas concretas (sensíveis). Busca um “por quê, a matriz ontológica do conceito” (ib.). As questões históricas seriam: quando e porque se vislumbra no pensamento ocidental a possibilidade de algo como um projeto? Que significados devemos atribui à descoberta de eventuais variações do valor ontológico desta idéia? (58).
Salienta, em sua busca pelos fundamentos ontológicos do conceito de projeto, alguns de seus traços estruturais – futuro (horizonte de temporalidade); possibilidade – estes já conferem a matriz fenomenológica de tal idéia (59). Terceiro traço: antecipação. “Projeto é, pois, uma antecipação do vir-a-ser de algo que, relativamente ao futuro, pode ser qualificado como possível” (59). Tal idéia, no entanto, parece “de todo estranha” a uma “concepção rigorosamente determinística do real” (diferente e oposta, aparentemente, à outras, tais como as categorias “necessidade” e “impossibilidade”. Estará o projeto justamente entre elas?). O homem caracteriza-se, pois, por sua capacidade de elaborar projetos, de antecipar, planejar, programar, especular o futuro. Na exis (ação), o homem já é possível, mas ainda não real, vindo a ser plenamente. Ou não: “...este pode-ser e pode-não-ser representa a indizível disponibilidade desse futuro relativamente ao qual o projeto antecipa”.
Portanto, o imperativo categórico-desterminístico “dever-ser” destrói, por assim dizer, a idéia de “projetualidade” – seria esta propriamente o devir? [Devir: do latin devenire - vir a ser; tornar-se; devenir. Devenir: “transformação incessante e permanente pela qual as coisas se constroem e se dissolvem noutras coisas; devir, vir a ser”. (Aurélio, op. cit.)]. Assim, a previsão ou pre-constituição da possibilidade é fenômeno “essencialmente ligado ao agir humano” – agir técnico, ético, ou teorético. A projetualidade, diz o autor, sempre teria sido um embaraço para os gregos, artífices do Logos, da Razão. Aqui projetualidade traz em si outro embaraço, o da subjetividade. Mas para o autor, os gregos são culpabilizados, injustamente, de terem separado radicalmente a razão da razão e as razões do sensível, o subjetivo e o objetivo, o caos e a ordem, os deuses e os homens. Os próprios gregos, sugere o autor, eram diversos em suas cosmovisões, subjetividades, projetos, devires. Havia Sócrates e seus discípulos, e antes deles os “pré-lógicos” “pré-socráticos”, e havia também os sofistas. Depois vieram os estóicos, os epicuristas, os escolásticos, os medievais, os renascentistas, os modernos, os nominalistas, os racionalistas, os empiricistas, os universalistas e os particuliristas, e chegamos, por fim, ao sujeito contemporâneo, aqui sim, diz o autor, confundido irremediavelmente em sua irredutível subjetividade - esta separação, portanto, é obra construída na longa duração... –. E também entre o “agir técnico” e o “agir ético” (por que e para quem mesmo que os homens projetaram a bomba atômica?). A práxis (a ordem da necessidade das coisas) teria destruído de vez qualquer ética, qualquer política – no sentido originalmente grego, de acordo com Hannah Arendt? Para esta pensadora, o século XX inventou a (des)razão instrumental, reinventou a violência instrumental- e esta destruiu a política. Somos reféns, diz Hannah, de uma ultra-tecnocracia – o reino dos que fazem bombas, mas que não conseguem pensar politicamente... Asim, uma (des)ordem de pensamento correlato, corresponderia, neste caso, ao da já mencionada filosofia da open society, o pós-modernismo (ou a modernidade líquida de Bauman), exercendo-lhe forte fascínio a idéia de “indeterminação do futuro”, que “se traduz numa completa disponibilidade do real para o investimento das decisões humanas” (65).
Por fim, em seu último baluarte pré-pós-moderno, encontramos Martin Heidegger. Heidegger, pergunta Calvo, “é o pensador que entre todos, mais repetidamente retoma e insiste justamente nesta palavra ´projeto´?”. Sim, tudo indica: “O pensamento antes deve se abrir para o sentido da diferença ontológica entre o ente e o ser...” (95).
“Tal exis [atitude] fundamental assume em Heidegger o sentido de uma projetualidade ec-statica do Ser (Da sein) humano, qual constante antecipação de si pela sua possibilidade mais autentica e autentificante: a morte. Assim se lê em Ser e Tempo: ´O que caracteriza o ser-para-a-morte autenticamente projetado no plano existencial pode-se resumir assim: A antecipação revela ao ser a dispersão de si próprio [o banal inautêntico do ´quotidiano médio´] e, subtraindo-o a fundo ao cuidar de cuidar, põe-no diante da possibilidade de ser ele próprio, numa liberdade apaixonada, liberta de ilusões do Si, efectiva, segura de si mesma e cheia de angústia´”. (96)
O autor, no entanto, encerra o verbete com palavras sombrias, decretando a contemporânea morte da categoria “projeto”, em um momento no qual essência e existência são colocados em lados apartados, onde o “intelecto cauculante” (Heidegger) produz uma “des-mitizização do mundo”. Parafraseando Tales de Mileto, o mundo [ocidental e ocidentalizado] tornou-se vazio de deuses? Tal des-mitização, por fim, “...impõe, na previsão (hoje garantida pela projetualidade tecnológica) total de um mundo, o obscurecimento do manifestar-se do fundamento na presença (determinação) do ente. Deste modo a confiança do hodierno Fausto no futuro é tão inconscientemente óbvia que ele já nem mesmo precisa do streben: confiando, ele se confia e se abandona ao projeto do ser que o ´saber´ para ele sancionou. Mas se o futuro se obscurece, se o projeto como verdade do ser vacila, então é o desespero e a desconfiança.” (98).
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