WEBSTER, Stephen. Dialogue and Fiction in Anthropology. In, Dialetical anthropology 7 (1982) 91-114.
Por Natelson Oliveira de Souza
O viés dos estudos antropológicos é essencialmente interpretativista, podemos assumir isso desde já. É esse algo entre a compreensão e a explicação que constitui o domínio do discurso antropológico e que faz dela uma das ciências mais vulneráveis em termos de produção de verdades. Admitamos. Mas, ao contrário, não podemos admitir, jamais, que o que fazemos e produzimos seja uma interpretação fortuita, sem lá muitos critérios. Quem assim o faz, certamente não pratica e nem pisa, mesmo que marginalmente, em solo fértil da antropologia. Se vivemos alguma crise epistemológica nos tempos atuais, certamente não é por fraqueza, mas por um espírito questionador rigoroso nascido na entranha de nossa ciência. A antropologia talvez seja uma das mais questionadoras, em se tratando de epistemes, das ciências humanas. Talvez.
É neste terreno que Webster parece semear e produzir, em seu artigo, suas idéias a respeito da relação entre hermenêutica e etnografia. Partindo de algumas evidências de que há neste campo uma compreensão mal resolvida entre certos filósofos hermeneutas e antropólogos, ele tenta resolver esse “falso” vazio que ainda persiste entre etnografia e hermenêutica, o que impulsionou ambos especialistas a se acusarem mutuamente a fim de estabelecer uma fronteira clara sobre o que cada um faz e a autonomia disciplinar em questão.
Webster, então, defende a idéia de que a própria hermenêutica é um genuíno alicerce do edifício das ciências sociais. E demonstra que a antropologia social constitui um abrigo natural nesta epistemologia porque sempre se confrontou com seus paradoxos e pré-conceitos com uma irredutível hesitação. Através do modo como pensamos sobre o que pensamos e o modo como escrevemos sobre isto (p.91).
Seu artigo é dividido em 3 seções que organizam sua argumentação. Na primeira ele tece algumas considerações sobre algumas etnografias clássicas e como seus autores constroem seus métodos de coleta e análise. Na segunda parte o autor revisita as contribuições da teoria hermenêutica nas ciências sociais e na terceira aborda os comentários de Geertz em relação à proximidade epistemológica entre Etnografia e Ficção.
Inicia-se no trabalho de Malinowski e a posterior publicação dos seus diários que revelavam os aspectos mais íntimos de sua situação de campo. Aspectos que ele manteve separado dos objetivos de sua pesquisa. Assim, Webster aponta que, até então, parece ser irrelevante buscar integrar estas duas situações ao trabalho etnográfico, ou seja, as inquietudes pessoais no campo e a observação objetiva que requer o trabalho de campo e as nossas escrituras.
Já Geertz, aponta o autor, chega a expor como fútil o ideal romântico da empatia entre antropólogos e anfitriões, contudo, negligencia suas próprias observações em outro contexto de suas pesquisas, quando diz ser tipicamente difícil a relação entre antropólogo-informante, contudo, é a ficção do bom encontro que expõe uma pesquisa bem sucedida, afirmando ainda, que em geral, há certa reciprocidade refletindo um acordo situacional, independente dos poucos motivos realistas para a adoção integral do antropólogo na comunidade anfitriã. Adiante, Webster afirma que, não diferente de Malinowski, em sua omissão etnográfica, Geertz poupa-nos de mais desconfortos e direciona o tema desta epistemologia da intimidade entre antropólogo-informante para a epistemologia do modo como o etnógrafo compreende o cenário em que está envolto. Enquanto Malinowski invoca o funcionalismo para assegurar a objetividade, Geertz recorre à variedade de interpretações como estratos interpretativos de nossa compreensão do campo.
Outra situação epistemológica e etnográfica que o autor converge às ironias de Malinowski e Geertz é a atitude ambivalente de Evans-Pritchard para com os Zande. Contudo, o autor afirma que Evans-Pritchard consegue ser mais sincero diante de seus informantes e de seus leitores quando assume inteiramente suas pré-noções, sem deixar, nesse caso, de respeitá-los. Pritchard escreve com as mesmas pré-noções positivistas de Malinowski, contudo, alcançando uma sinceridade etnográfica que Malinowski foi incapaz, porque ele não poderia, presume o autor, eliminar o seu diário de campo de sua etnografia. No caso de Pritchard, ele se deparou em campo com uma situação peculiar: a impossibilidade de experienciar, em seus próprios termos, aquilo que os Zande afirmavam ser feitiçaria. Outros autores concluem, como Winch, que a feitiçaria existe nos termos Azande e que deve ser entendida desta maneira.
Neste caso, Pritchard estava convincente de que nos termos Azande se tratava de uma ficção, muito embora tentasse convencer seus leitores da racionalidade prática das crenças Azande. Nesse sentido, muitos admiram o esforço epistemológico enquanto outros insistem na veracidade dos dados etnográficos, consistindo, até hoje, essas questões, como exemplos do dilema epistemológico da antropologia, e que muitos têm evitado confrontar este dilema.
Para Webster, a experiência existencial dessas diferenças em si que constitui o terreno fértil do entendimento antropológico, construído por “estranhos” que vivem juntos e que, portanto, constroem juntos ficções e afirmam verdades. Subjetividade e objetividades são outros elementos que estão imbricados, e para entendermos isto, cita Decartes: “penso, logo existo”, aqui a experiência concreta é formada em subjetividade e objetividade, portanto, a perspectiva epistemológica a qual Webster insiste, é que ambas, “subjetificações” e “objetificações”, são generalizações que ocorrem a partir de uma compreensão mútua no encontro entre antropólogo e informante, tanto a subjetividade quanto a objetividade existem nesse processo, no qual ele demonstra haver uma dialética entre verdade e ficção, da qual Geertz denomina de ironia antropológica.
II
Na segunda seção do seu artigo, Webster se ocupa da visão de Gadamer, um dos maiores expoentes da hermenêutica filosófica, apresentando alguns pontos de vista deste sobre a hermenêutica. Numa crítica a Dilthey, Gadamer afirma que a inconsistência de sua teoria está no fato dele separar o círculo hermenêutico do contexto histórico e existencial do intérprete. Gadamer segue a postura de Heidegguer, quando incorpora o intérprete ao círculo hermenêutico, no sentido de que a compreensão só se torna possível diante de um diálogo intersubjetivo, num diálogo que constitui um produto de dois pontos de vistas diferentes, pois é nesse contexto que se apresenta a dialética do entendimento. Como consequência, todo conhecimento constitui uma unidade efetiva de uma rede de ações recíprocas. Noutras palavras, um “outro” constituído da visão de mundo do observador e do observado, formando assim a “afinidade”, ou, na visão de Devereaux, uma complementaridade entre observador e observado. Mas, Giddens, segundo webster, aponta o problema da desigualdade de significados que costuma acontecer como ocorre na obra de Evans-Pritchard, a questão da feitiçaria Zande e o ceticismo inglês, o que é relatado pelos Zandes costuma ser tomado por metáfora, pelo relativismo cultural, ocorrendo assim, uma força desigual na compreensão da realidade social. Assim, o autor diz que, a insistência hermenêutica na reintegração do intérprete no objeto de conhecimento parece colidir com o relativismo cultural e convida e legitima o etnocentrismo. No entanto, Webster diz que esta aparente contradição pode ser resolvida recorrendo a Gadamer quando este se posiciona contra a imposição do tradicionalismo ou conservadorismo.
III
Na terceira e última seção, Webster indica, ancorado em Gadamer, que essa aparente dificuldade, essa “ironia antropológica” de Geertz, é realmente a reivindicação da verdade etnográfica, até mesmo com aquilo que há de mais desconfortável, como as mentiras, a má-fé, “auto-deception”, etc. Tudo isso constitui elementos na interpretação reivindicada pela etnografia atual. Tudo isto agora está embutido na longa história do conhecimento, o que faz com que a visão positivista de uma verdade única seja revelada como meramente utópica. Não podemos mais traçar, diante disso, uma linha que difere o que é verdade de ficção de forma tão simplificada como costumamos fazer. Webster apresenta as posições de alguns colaboradores na defesa desta nova postura, a exemplo de Ricoeur, quando este afirma que a narrativa é a base epistemológica comum do texto, da ação social e da história. Nesse sentido, esses três elementos formam a operação pela qual o narrador conta uma história e seus expectadores ouvem. Esta narrativa decorre da experiência e perpetua um consenso que, por sua vez, apresenta a complementaridade entre narrador e ouvinte; observador e observado. Webster ainda nos demonstra as técnicas padrões usadas na construção do texto etnográfico, num sentido claro de manipular a narrativa com intuito de prestigiarmos a objetividade do trabalho, como exemplo, a recusa sistemática da escrita na primeira pessoa do singular “eu” ou “mim”. Contudo, raramente há um esclarecimento sincero das condições básicas do entendimento, no trabalho de campo, da duração deste trabalho; a forma e o grau de aceitação pelos anfitriões; fragilidades teóricas, etc. Em nome de uma suposta objetividade, omitimos desconfortos enfrentados em campo, que julgamos, por conveniência, irrelevantes para a construção da realidade social, a qual o trabalho objetiva.
Enfim, a conclusão do autor, Webster, é que a teoria narrativa pode tornar mais claro para nós, o diálogo implícito tanto no trabalho de campo como em etnografia, e ajudar-nos a superar o dogma que obscurece a dialética inerente entre ficção e verdade, que diz respeito às nossas pretensões em alcançar uma “ilusão” de transparência, a verdade através de inocentes ficções. Num fechamento triunfal do texto, Webster diz: “A etnografia deve estar aberta às contingências de sua textualidade assim como ocorre com na experiência social concreta em que se baseia".
Imagem: Ricardo Machado
"Certamente é um sujeito que ficou a ver navios."
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