
Barquinho em Cachoeira-BA
BOLOGNA, Corrado. Voz. In, Enciclopedia Einaudi, volume 11, criatividade – visão. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1987 (pp.
Carolina Santana[1]
Diferente de outras obras de referência, ao se recorrer Enciclopedia Einaudi para consulta de um assunto, o leitor se depara não com um simples verbete, mas sim com um artigo sobre o tema pesquisado. Tal é o caso do trabalho de Corrado Bologna, professor de Filologia Romântica interessado no estudo da vocalidade medieval e moderna, onde aborda com riqueza e amplitude a questão da Voz.
Bologna apresenta de forma sistemática as idéias tratadas no texto através de subtítulos enumerados, oferecendo ao leitor um panorama de sua abordagem, dividida em dois principais eixos temáticos: a metafísica da voz e a antropologia da voz. Tal recurso garante objetividade ao texto, além de eventualmente despertar a curiosidade com enunciados como “A voz do corpo e as paixões da alma”, “O nome impronunciável” ou mesmo “A voz do silêncio”. Se por um lado adota um formato prático para apresentar sua argumentação, por outro envereda de modo quase poético em sua análise e esse “tom” é dado logo no primeiro parágrafo, em sua definição da voz:
“Antes mesmo de ser o suporte e o canal de transmissão das palavras através da linguagem, a voz é um imperioso grito de presença, uma pulsação universal e uma modulação cósmica através de cujos trâmites a história irrompe no mundo da natureza”. BOLOGNA (1987, p.58)
Temos então, como desafios simultâneos, acompanhar o ritmo do autor, buscando em suas alusões e alegorias o sentido de suas reflexões, e tentar compreendê-las criticamente, contrapondo-a as nossas próprias considerações. Esse exercício de “ajuste” ao estilo do texto pode ser incômodo inicialmente, exigindo a releitura de parágrafos inteiros, sensação passageira substituída logo pela surpresa, já que por inusitados caminhos ele apresenta uma abordagem intrigante sobre a voz, desvendando potencialidades e significados, articulando natureza e cultura através da filosofia e da antropologia.
Na primeira sessão, em que trata da metafísica da voz através do pensamento de diversos filósofos, parte do pressuposto de que a voz é uma presença que está inextrincavelmente ligada aos fenômenos corpóreos que precedem à consciência, sendo portanto distinta da palavra e da linguagem. Nesse sentido, ressalta que a voz não é exclusividade dos seres humanos, visto que os animais possuem sua voz, ainda que vazia e desprovida de conteúdo específico, ao passo que os humanos negam e articulam o som dessa voz, tornando-a voz sonora, linguagem significante. O lógos é tomado como união do pensamento e da vocalidade, nele desaparece a voz pura, dando lugar à palavra, gerada pela união entre voz e sentido. Mas antes desta transformação, a voz da origem é um fluxo corpóreo “modulado a partir da respiração e do sangue que irriga os pulmões” BOLOGNA (1987, p. 60), que “para se transformar em pensamento é obrigada a tornar-se perceptível por palavras”. BOLOGNA (1987, p.61). A voz, como o mythos, é algo indizível, que precisa “adotar a carne da linguagem para se tornar visível” BOLOGNA (1987, p.62), de modo que a linguagem provém da voz e não o contrário.
Considerando a existência de uma voz interior e outra exterior como ressonâncias recíprocas, aponta o potencial discursivo do silêncio através das práticas sacerdotais, que envolvem mistérios não revelados, e da oração interior: silenciar os sentidos e a mente promoveria a purificação do espírito. Revestido de autoridade divina, o silêncio sinaliza o indizível, a distância infinita de Deus, e é através do lógos que os segredos são traduzidos e interpretados, buscando revelar o Invisível-Indizível. Assim, a palavra é incorporada à voz tal como a mistura da alma e do corpo. Para Bologna, é justamente o controle sócio-comportamental da voz e das palavras que leva a metafísica da voz a desdobrar-se numa antropologia da voz, sendo possível vislumbrar a passagem do “dado natural” a “estrutura simbólica”.
Passando à segunda sessão, que trata desse desdobramento, apresenta a teoria da voz e da palavra dos Dogons africanos, estudados por Marcel Griaule, para ilustrar como a ritualização e controle rigoroso da voz a torna um instrumento comunicativo. Para os Dogons o mundo estaria dividido entre “seres que falam a palavra” e “seres que não falam a palavra” BOLOGNA (1987, p.73), ou seja, todos têm em comum a voz, mas nem todos a articulam de modo ritmado. Ato e palavra estão, portanto, intimamente ligados: a fala é resultado da ação e é a voz que dá vida ao discurso; a palavra é a projeção sonora do homem no espaço. A qualidade da voz, feminina ou masculina, e do seu exprimir-se, o tom com que a palavra se manifesta, refletem uma lógica estrutural para os Dogons, assim como para outros povos, como os chineses antigos que dividiam a vibração em ativa, quente e viril (yang) e passiva, fria e feminina (yin), ou os hindus que consideram a respiração e a palavra energias simultaneamente espirituais e sexuais. Entretanto, o autor ressalta que tal caráter comunicativo da voz sofre uma redução drástica no contexto dos esquemas sensóricos e epistemológicos da cultura alfabético-textual, estando subordinado aos cânones da textualidade.
Quanto ao timbre da voz, é tratado metaforicamente como seu sexo, indicando sensualidade, e, ao mesmo tempo, determina o pensamento, na fonação e na entonação, “com base em mutações nem sempre conscientes do ‘tom’ psicológico” BOLOGNA (1987, p.79). Desse modo, indica a existência de uma codificação da voz, ilustrada a partir da economia simbólica da cultura cerimonial, a chamada “voz de salão”: voz e palavra são dissimuladas e simuladas, “a fim de adequar a aparência ao catálogo normativo das retóricas sociais” BOLOGNA (1987, p.80). Estabelecendo-se um modelo da vocalidade correta, aplica-se uma “fisionomia da voz, caracterizando um paralelismo exato entre o timbre, o tom vocal do indivíduo e as respectivas qualidades do seu caráter” BOLOGNA (1987, p.81). É precisamente essa ritualidade que permite à natureza conservar-se na cultura, pois é preciso controlar a voz se se deseja participar do corpo social:
“(...) aquilo que mais pesa é a capacidade de educar a voz, preparando-a para o silêncio ou para a palavra, adequando-a a gestualidade controlada, orientando a espontânea sonoridade para a manifestação, ou então para a dissimulação, das intenções (dos sentimentos)”. BOLOGNA (1987, p.81)
Já na reta final de sua argumentação, trata do valor demiúrgico da voz na cultura ocidental moderna através da relação paciente e analista, onde a voz é o principal elo entre eles, oferecendo passagem ao simbólico e cuja interpretação cabe ao psicanalista. Ressalta que a voz tanto pode gerar doenças como pode curar o mal invisível, estando a eficácia da palavra mágica dependente do modo como ela é emitida. Também considera as conseqüências da era tecnológica-eletrônica na restituição do vigor ao auditivo e ao oral, diante do surgimento de modalidades inéditas de percepção e de instrumentos de transmissão inesperados como o telefone e o gravador -- o primeiro garantindo a possibilidade de ouvir à distância, sem ver o corpo de quem fala, o segundo prometendo a imortalidade da voz -- cristalizando sua presença.
A riqueza das contribuições oferecidas pelo autor pode ser aproveitada por profissionais de diversas áreas, mas para os antropólogos em particular elas destacam aspectos que nem sempre são encarados conscientemente. A voz é um dado fundamental na prática etnográfica, tanto nos diversos momentos da interação entre o etnógrafo e seus informantes, como posteriormente, quando o pesquisador transcreve as entrevistas gravadas. Ouvir a voz, ou melhor, as vozes, avaliando timbres, tons, interpretando intenções e motivações, é tarefa do antropólogo, tanto quanto ouvir os silêncios, as pausas e os suspiros. Entre tantos elementos a serem desvendados e interpretados na lógica do social, a modulação, o controle (ou descontrole) da voz pode passar despercebido, fazendo parte da análise de forma implícita, quase intuitiva. Bologna oferece nesse artigo a possibilidade de reconhecermos e tornarmos visível o poder do som articulado, atribuindo-lhe conscientemente a merecida importância. Desse modo, no exercício da escuta, o antropólogo precisa estar atento: é através da voz que o informante pode revelar o que não é verbalizado. É na transformação da pulsão sanguínea e do fôlego em palavra articulada que muitas pistas são reveladas e enigmas podem vir a ser desvendados.
Foto: Carolina Santana
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