POMIAN, K. Evento. In, Enciclopedia Einaudi, volume 29, tempo/temporalidade. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1993. (p.214-235).
Por Natelson Oliveira de Souza
O texto pretende demonstrar a importância dos eventos, acontecimentos, e seus efeitos no olhar de quem os assiste. Contudo, o autor se debruça nos modos de se estudar a história, em particular, na trajetória dos seus métodos historiográficos. De uma interdisciplinaridade com a filosofia e psicologia à contribuição das ciências sociais, no sentido em que esta pensa os eventos de outra maneira bastante fecunda para a própria abordagem cronológica.
Entendemos o evento por todo acontecimento visível e destacável diante do cotidiano, que ultrapassa os fatos mais corriqueiros e que implica, portanto, numa descontinuidade, uma ruptura no tempo e no espaço de uma sociedade. Como ilustração o autor cita as catástrofes, guerras, acidentes, ou seja, toda ocorrência que pode ser considerada atípica.
Citando a história, o autor cita Voltaire e Mabillon quando estes reforçam a idéia de que não há nada mais inútil do que o modo habitual de se estudar a história, no sentido de mera sequência de fatos. Antes, é preciso apreender os eventos em profundidade, ou seja, suas causas e efeitos, por exemplo, como um evento interfere nas mentalidades, no que ela altera no comportamento, e, sobretudo, os efeitos dessas interferências na sociedade como um todo.
Os historiadores sempre se preocuparam, cada qual ao seu modo, em superar na narrativa histórica, o mero sequenciamento dos fatos, para prestigiar um ponto de vista julgado superior (mais relevante). Assim, o autor demonstra em alguns autores as evidências dessas preocupações, Buckle (p.216), por exemplo, defende a idéia de que a verdadeira história da raça humana é a história das tendências que a mente percebe. Prossegue o autor, durante muito tempo a história foi considerada uma arte mas, a partir do século XVIII, constrói-se o seu status de ciência, no sentido de que se apodera, presumem, de instrumentos analíticos capazes de descobrir leis gerais dos fenômenos sociais e que presidem a humanidade.
Esse status de ciência, no entanto, nunca foi estável e unânime sequer entre os próprios historiadores, muitos acentuavam seu caráter literário, por exemplo. O que se punha em jogo, segundo Pomian, seria sua capacidade de mostrar o caráter e o espírito de uma época, mas não de forma fantasiosa, teria uma orientação metodológica típica das ciências mais reconhecidas enquanto tais, como a física; já os defensores de uma história-arte enfatizam o pouco valor da descrição dos eventos caso não se construa a possibilidade de haver uma relação de identificação ou intimidade aos que ouvem ou lêem sobre determinado evento. Em suma, era posto em discussão o caráter da descrição que se fazia dos acontecimentos (p.217).
Das tendências que há entre os historiadores (p.218), por mais que se acusem em métodos insuficientes, nenhum deles concebe a história sem eventos. A partir de então, podemos tirar algumas conclusões, diz o autor:
· Há uma diferença básica nos relatos dos acontecimentos e o que chamam de história verdadeira;
· Os historiadores concluem que um simples relato dos eventos é incompleto, insatisfatório;
· Há uma relação destacável entre evento e não-evento.
A partir disso, o artigo de Pomian se orienta por questões que nascem dessas conclusões, tais como:
· Qual mecanismo reproduz essa diferença básica entre o simples relato e a história verdadeira?
· Por qual razão o simples relato é insuficiente?
· O que destaca a importância ao problema das relações entre eventos e não-eventos?
O autor prossegue nos propondo uma situação que nos lembra o diário de campo, típica ferramenta do trabalho de campo etnográfico (p.219): a proposta seria anotar tudo o que acontece num dia. Mas, sugere ele, nessa operação os momentos (eventos) em que não estamos presentes permanecem no silêncio, nos espaços em branco das nossas anotações. Percebemos também, que o dia será decomposto em unidades distintas, ora ocorridas simultaneamente, ora em sequências. Ao fim do processo, o conjunto de unidades que registramos não passa de um subconjunto do que tenha acontecido.
Com isso, o autor apresenta-nos três tipos básicos de captação de um evento: o diário, a crônica e a memória. No diário registra-se o que se considera que aconteceu enquanto a crônica e a memória difere do diário por serem construídos sem o impacto dos acontecimentos, mas depois deles, naquilo que se configura em lembranças das ocorrências (p.220).
Nesse sentido, apenas importa para o autor, que as três operações decompõem o tempo em unidades diferentes, essas unidades, diz Pomian, são constituídas do que chamamos “evento”. Acontecimentos que se destacam diante do cenário observado, mas, ressalta, que não sejam destaques apenas para 1 observador e sim vários, que tenham condições de comunicarem uns aos outros a situação observada.
Outro problema que o autor identifica é sobre o discurso em relação ao passado, Pomian afirma ser um problema antigo, desde o grego Heródoto (séc. V a.C.), quando este sustentava uma questão-chave, a saber, como falar de eventos não assistidos pessoalmente?
Neste caso, o autor problematiza o discurso que versa sobre o passado (p.223), especialmente àqueles ocorridos há muito tempo, esses adquirem status de conhecimento e não de fantasia se provir de instituição ou pessoa cuja autoridade, para a reprodução do evento passado, é reconhecida. Parece que uma história do passado, nesse caso, é posta como conhecimento mediato, ou seja, através de documentos, por exemplo, que constituam a parte visível e constatável de uma narrativa de outrora. O discurso do historiador, nesse sentido, só toma status de conhecimento através dessa mediação; do confronto de documentos da época. Daí emerge o historiador pesquisador. Para o discurso ser relativamente aceito, no entanto, é necessário uma pesquisa bem feita, saturada em confronto de dados.
Adiante o autor associa o evento a percepção(p.224), por extensão, à visão. Diante das questões já postas, percebemos que o evento não se reduz mais ao presente, ao visível, e entendemos daí, a importância das ciências sociais à história. A partir disso, surge o que muitos chamam de história hermenêutica, na qual um novo modo de pensar as narrativas e os documentos evita os dois extremos, a saber, história-arte ou história-ciência. Ela quer ser agora uma ciência social.
Surge então a questão a dicotomia da visibilidade/invisibilidade, que, por sua vez, não se reduz também ao aspecto diacrônico, mas também ao sincrônico. Segundo o que foi exposto por Pomian, ambas são preenchidas por conteúdos que variam segundo as sociedades e as épocas. Para uma história dita verdadeira, não podemos nos reduzir ao evento, ao visível, mas também devemos abarcar os sentidos dele, como sua causa e efeito, o que constituiria o semblante do invisível (p.225).
Prosseguindo em seus argumentos, o autor nos afirma que jamais alguém conseguiu escrever uma história só por eventos. Cada historiador relaciona, de algum modo, ao evento, algo do invisível. Por exemplo, são os comuns descrições históricas dos eventos políticos, em geral está imbuída da psicologia dos agentes políticos que dão sentido ao acontecimento, como um Projeto (Cf. Calvo, 1992, ibid, vol. 25, p. 58-100), esse conhecimento é possível analisando os resultados da percepção do evento, visando identificar as verdadeiras razões dos atos desses agentes (p. 227-228).
Esse tipo de história, dita filosófica, hermenêutica, enfim, dá preferência a alguns campos do saber e a política é visada apenas como meio de extrair significados, jamais como orientação metodológica para se entender os eventos, dá-se preferência, por exemplo, à arte porque estimula a criação, é o que dá acesso, nesse sentido, ao invisível. Também prefere-se a filosofia porque por ela se manifesta a razão, portanto, investigação com rigor daquilo que é invisível (p.229).
Assim, a idéia que temos do invisível depende do que percebemos do campo do visível. “Por esta razão, os historiadores, sobretudo os que pretendem ser científicos, são de ora em diante obrigados a orientar-se para as ciências sociais e a transferir para o estudo e a descrição do passado o que estas ciências fazem quando se ocupam do presente” (p. 230).
Enfim, ele (o autor) expõe as possíveis respostas para as três perguntas que guiaram as argumentações deste artigo (p.232-233):
· Não podemos prescindir a história ao campo do visível. A importância da relação entre evento e não-evento é o fato de se tratar de caso particular, que varia de sociedade a sociedade segundo sua percepção e linguagem.
· O mecanismo que difere o simples relato da “história verdadeira”, são as fronteiras móveis entre o que seja esfera do invisível e visível, ela pode diferir a cada sociedade.
· O relato de um evento não é suficiente para a história porque o evento está contido em algo mais amplo pertecente ao campo do invisível: seriam as estruturas e conjunturas. Pomian, diz: “Os períodos em que se verificam perturbações nas estruturas são designados na literatura histórica como revoluções. E estas não são nada além de uma sucessão de eventos, um choque no tempo e no espaço” (p.233).
"Navio que não bóia só pode ser evento."
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