quarta-feira, 10 de junho de 2009

sigilos, intimidade e a produção da experiência do trabalho de campo


LOVELL, Ann. When things get personal: Secrecy, Intimacy, and the Production of Experience in Fieldwork. In, McLEAN, Athena and LEIBING, Annette (editors). The Shadow Side of Fieldwork: Exploring the Blurred Borders between ethnography and Life. Malden and Oxford: Blackwell Publishing, 2007


por Paulo A. Moreira


A autora comenta que em muitos escritos etnográficos o sigilo é antes avaliado o seu tratamento. Para ela o segredo é uma das maiores questões da etnografia. Convenções no texto etnográfico guiam a leitura do segredo e suas penetrações. Verdades, ou melhor, segredos são encontrados pelo etnógrafo que podem, ou não, serem interpretados como verdades pessoais inquestionáveis, verdades coletivas e politicamente perigosas, ou ambos (LOVELL, 2007, p. 57).
Anne M. Lovell argumenta que Maurice Godelier estudou os Kwaimatnie e como eles tratam um de seus segredos míticos “o segredo Baruya” como objeto. A autora também comenta que Godelier depois de muitos anos de trabalho de campo e após observar uma iniciação de mestre revelou o que era mentira nos Kwaimatnie. O texto Godelier seguiu um gênero de estória de detetive, suspense, anonimato em atmosfera geral de ansiedade e perigo (LOVELL, 2007, p. 57).
Segundo Godelier, a dominação dos homens Baruya sobre as mulheres se dá através de um mito de apropriação do forte poder (feminino) das mulheres. Desse modo, a autora nos mostra como um imaginário mítico se torna investido simbolicamente de um real para a fala (iniciação ritual). Assim demonstra-se com essas investidas reproduzem as relações sociais de gênero a partir do segredo. (LOVELL, 2007, p. 57)
O outro tratamento mais ambíguo do secreto emerge da biografia da Nobel da Paz, Rigoberta Menchu, uma ativista maya. Ela é autora de um aclamado livro acadêmico que é alternadamente criticado como voz monológica em um processo de escrita dialógico. Fala-se que Rigoberta manteve segredo de sua identidade índia como autentica voz feminina subalterna e revolucionária.
Em ambas as etnografias, o tratamento do segredo é analisado na sua textualidade (através de uma construção normativa) a luz do poder das relações entre antropólogo e o interlocutor em campo (LOVELL, 2007, p. 57). Para autora, o segredo pode ser interpretado como forma de resistência do sujeito, ou melhor, uma forma de recognição e resistência ao poder do outro, numa relação entre proprietário e contemplador. Outro aspecto importante na relação do secreto é o fato de que no mínimo envolve duas partes, os que sabem do segredo e os excluídos (não iniciados). Onde muito freqüentemente os excluídos são os antropólogos. Segundo Lovell, se analisarmos a dialética do segredo e da auto-revelação entre etnógrafo e interlocutor em campo, vamos perceber vários níveis de relações de poder através do dialogo e de uma espécie de micropolítica (LOVELL, 2007, p. 58).
Para a autora, se questionarmos a noção absoluta da verdade, vamos perceber que o que está em jogo não é a noção de verdade, mas o ponto de vantagem do que é revelado, e como é apresentado (LOVELL, 2007, p. 58). Para ela, nessa relação entre etnógrafo e interlocutor é necessário compreender o vivido entre os dois, para entender como o inexprimível vem a tona numa relação profunda e pessoal de intimidade e emoção na troca de experiências entre os dois sujeitos. Seguindo essa linha de raciocínio, a autora argumenta que a relação de intimidade entre antropólogo e sujeito gera trocas de experiências e escolhas, como um estilo emocional em articulação com o silencio. A autora ainda complementa, que toda essa dinâmica de relações misturada a uma situação etnográfica assimétrica entre observador e sujeito podem trazer respectivos diálogos sombrios dos dois, onde o silêncio articulado com a ruminação de reflexões acabam por auto-constituir um discurso de intimidades (LOVELL, 2007, p. 58).
Depois de apresentar essas questões conceituais, a autora traz exemplos sobre situações nas quais o segredo, a discrição e auto-revelação são pontos cruciais na sobrevivência social dos sujeitos. Ela ilustra o primeiro caso a partir de uma pesquisa feita por ela em “New York”, com pessoas que tiveram experiências de psicoses e outros estados anômalos que procuraram grupos de auto-ajuda, e que foram atendidos de forma não institucional em sua recuperação. O segundo exemplo é baseado numa história de vida de um homem jovem francês que mora em Marseilles que secretamente voltou a usar drogas injetáveis após ser liberto da prisão. No primeiro exemplo o segredo e a auto-revelação surgem através de conversações diárias e observação participante. No segundo exemplo o acesso a intimidade e segredos se deram através de história de vida coletada em diversos momentos e espaços de encontro entre etnógrafo e sujeito.
Segundo a autora, a noção de intimidade tem variados significados particulares, articulados no tempo e no espaço. Dentre essas definições, ela argumenta a definição do sociólogo chamado Jean- François Laé, que diz: “ser um espaço de atitudes, maneiras, regras, palavras, ações através do segredo, onde se mantém as sanções sociais a distância. Isto é, um espécie silêncio autorizado classificado pela posse e o desvio desejado, que de outra forma pode ser julgado ou sancionado (LOVELL, 2007, p.60)

ZONAS DE VULNERABILIDADE

Segundo Anne Lovell, zonas de vulnerabilidade referem a espaços de estatutos marginais, instituições disciplinadoras e espaços públicos intersticiais. E também podem ser: atos de auto-revelação e manutenção do segredo, que em grande parte são heterônimos controlados por vigilância de regras dos outros. Por sua vez, o segredo é uma questão onipresente e infusa nas zonas de vulnerabilidade. A precariedade social, estigma, loucura, institucionalização, marginalidade social e mais geralmente a falta, prevalece em cada espaço de intimidade pessoal observado no outro.
Segundo a autora, a relação de poder na dinâmica do segredo e da auto-revelação é primeiramente encarnada através de uma inadequada mediação de no mínimo dois corpos. Desse modo, os corpos projetam outros signos do lugar social, e se encontram em zonas de vulnerabilidade carregada de signos e potenciais estigmas. Para Bourdieu, uma confusão cognitiva e outras condições psíquicas impedem escolhas ou dicas seguindo o sentido de “doxa” (Bourdieu 1977).
Na reflexão da autora, o encontro do etnógrafo e do interlocutor na pesquisa de campo é também respectivamente o encontro de suas sombras que emergem com o dialogo (LOVELL, 2007, p. 66). Conforme Crapanzano há uma espécie de senso psicanalítico das sombras operadas pelos interlocutores através da transferência e da contra transferência de informações, que geralmente acontece de forma não intencional na situação de campo.




DISTÂNCIA, DISCRIÇÃO E CONSTRUÇÃO DO PESSOAL

Outra esfera do segredo transita pelo espaço publico num senso dual entre privado e publico, ou seja, dados que podem ser publicados ou se tornar públicos. Este tipo de intervenção acontece através de barganha entre o etnógrafo e o sujeito do que se pode ser identificado publicamente e o que se pode ser acordado por restrição (estas restrições envolvem variáveis de tempo). Em outras palavras, o que se pode dizer num caminho de uma construção interpretativa do que pode ser lido sobre o sujeito. Assim, geralmente o espaço público é tratado como liminar pela co-presença freqüentemente de estrangeiros. Desse modo, serve temporariamente como um momento de transição entre espaços da ação social do que está vinculado a identidade e a mundos sociais (LOVELL, 2007, p. 70).

A FONTE SOCIAL SO SEGREDO

Segundo a autora, Georg Simmel’s fala que a teoria do segredo é o constitutivo da linguagem social, em diversos caminhos. Se a sociedade esta condicionada pelo fato da fala e da comunicação, ela é modelada também pela habilidade de fazer silêncio. No raciocínio de Simmel’s a mentira é um argumento social e cognitivo. De outra mão, a interação social torna-se possível somente por causa dos interlocutores conscientes ou inconscientes de filtrar a discriminação subjetiva de ambos, ou seja, dos seus sentimentos ou segredos. Para Simmel’s, a incapacidade para a desorganização cognitiva é a essência do “dialogo insano”, na qual se reduz para um monólogo não consensual. Desse modo, o segredo para Simmel’s é também a base da construção social de toda a sociedade, e de toda sua sociabilidade. Dessa forma, o curso da revelação e da dissimulação opera como táticas de um jogo de poder, e também como princípio universal particularizado a indivíduos e situações. Para Lovell, o segredo existe independente do potencial revelador, e também, só existe em relação ao outro (LOVELL, 2007, p. 72 e 73). Os diálogos sombrios são especialmente pessoais dentro do que se pode chamar de sombra.

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