quarta-feira, 10 de junho de 2009

Is Anthropology Art of Science? (Comments and Replies)


Michael Carrithers; Andrew Barry; Ivan Brady; Clifford Geertz; Roger M. Keesing; Paul Roth; Robert A. Rubinstein; Elvi Whitaker

por
Evandro Rabello


O texto de Carrithers revisita o debate acerca da condição da antropologia face à arte, como decorrência de reflexões que remetem ao caráter interpretativo hermenêutico desta disciplina, consolidado a partir do início da década de 1970 e associada à figura do antropólogo norte-americano Clifford Geertz. Sobre esta condição, tanto Geertz (1984) quanto Clifford (1988), segundo autor, afirmam que o que os antropólogos fazem é criar para eles mesmos personae com maior ou menor autoridade, sendo esta representada pelo seu estilo de escrita ou apresentação. Exercício narrativo, portanto, atribuiria à etnografia, componentes mais ou menos evidentes de persuasão e inventividade. A contribuição da hermenêutica à antropologia reforçou a possibilidade de uma abordagem cada vez mais próxima de uma perspectiva de análise de representações e aspectos dos não-ditos, essencialmente presentes nos textos antropológicos, no entanto mais valorizados a partir das mudanças provocadas pela ascensão da antropologia proposta por Geertz.
Clifford aponta ainda o caráter dialógico da antropologia, evidenciando o desafio dos antropólogos em estabelecer, numa disciplina que se pretende aproximar de uma experiência subjetiva (tanto do pesquisador, quanto do(s) sujeito(s) pesquisado(s) sua cientificidade em relação a outros campos de conhecimento que se caracterizariam por uma objetividade condicionadora da produção do saber a que estas últimas se dedicam.
Carrithers cita ainda Sperber (1985), que tece comentários sobre a clássica etnografia Os Nuer (1956) de Evans-Pritchard, na qual identifica em determinados trechos, em que a assunção de interpretações a partir de sinais e comportamentos, se faz presente mesmo na “descrição objetiva” a que se dedica o antropólogo britânico em sua obra de referência. A relação entre a etnografia e antropologia merece atenção do autor quando apresenta a diferenciação entre o Verstehen (etnográfico) e o Erklären (antropológico), o primeiro processo dando conta de “compreender empiricamente” e o segundo, de “esclarecer cientificamente”. Sperber concorda com Geertz e Clifford que a antropologia deve sim ser considerada ciência, porém de uma natureza distinta de outras ciências de caráter, mormente positivista, ao contrário, baseada na compreensão e na interpretação etnográfica.
A questão a que se dedica Carrithers a seguir, diz respeito à produção de conhecimento, que se situa em um horizonte de relações e eventos próprios de um grupo de conhecedores, ou seja, é algo compartilhado socialmente e que está, de algum modo, de acordo com o repertório de conhecimento comum a essa sociedade. Ao citar ainda Geertz, Clifford e Sperber, o autor nos conduz à reflexão sobre as condições sociais e históricas nas quais os cientistas produzem conhecimento e, evidentemente, daqueles que a elem terão acesso. No entanto, a “libertação” da antropologia de uma comparação direta com outras disciplinas constrói-se sobre formas específicas de produção de dados, intervenções e manipulações, através das quais não se chegaria a uma “verdade”, mas a evidências próprias da prática etnográfica. Deste modo, a forma como se apresentam estas evidências descreve cenários, comportamentos, práticas de objetos de pesquisa os mais diversos, mas o que se verifica, efetivamente, é o registro de formas de interpretação e compreensão de diversos fenômenos presentes no campo de pesquisa.
A Geertz, o autor reserva críticas sobre o argumento deste que pressupõe a credibilidade etnográfica pelo fato de que o etnógrafo “estava lá”, no local e momento das ocorrências julgadas pertinentes. Como se a briga-de-galos pudesse, somente ela, deixar entrever aspectos múltiplos da sociedade balinesa, por exemplo. Para Carrithers, o etnógrafo “estava lá” por conta de especificidades da etnografia. A narrativa produzida, a partir de então, seria, necessariamente condicionada pelas condições mesmas de inserção do pesquisador no campo e às formas a que ele recorre para construí-la, num gesto de limitada autonomia, tendo em vista as numerosas contingências existentes no campo e que se revelam no processo de registro escrito. A depreensão das evidências sujeita-se igualmente aos fluxos de eventos aos quais os atores observados se relacionam e a inúmeros desdobramentos possíveis em tais condições. Carrithers salienta que importantes antropólogos, desde Evans-Pritchard, de certa forma negligenciavam expressões tais como emoções, intenções, atitudes e motivações, a elas atribuindo menor relevância.
Ainda se utilizando do exemplo d’ Os Nuer, e sob a perspectiva de Sperber, a “descrição fatual” e a “observação simples (objetiva)” preconizada são inapropriadas para ambos os casos: o modelo científico das ciências naturais e à etnografia. Para ele a observação simples, sem treino e habilidades específicas, assim como não se pode conceber, do mesmo modo como produzir conhecimento científico apenas com estes métodos.
Por fim, Carrithers trabalha com o que ele próprio chama de “aparente paradoxo” entre: consensibilidade e consenso. O ponto de partida para analisar esta distinção se verifica na natureza mesma da prática etnográfica, que pressupõe a construção de um conhecimento confiável, a partir de material aparentemente “pessoal e autobiográfico”. A questão, se não se pode resolver completamente, ao menos é acomodada no fato de que a etnografia é uma atividade necessária para o entendimento de outras realidades culturais, na medida em que existe real dificuldade de um povo, grupo ou comunidade descrever-se a si mesmo. O conhecimento derivado desta atividade (etnografia) é pessoal no sentido em que é, segundo o autor, “exercitado por pessoas em relação a outras pessoas”. Chama à atenção ainda outro aspecto presente no título do texto: a antropologia como forma de arte. Segundo Carrithers, alguns antropólogos combinam o conhecimento científico com recursos literários, com o intuito não de mistificar, mas de esclarecer os dados etnográficos. Uma etnografia completa, no sentido de ‘bem acabada’, conteria muito mais do que modelos consensuais, mas estes, por sua vez, seriam necessários à etnografia. Adiante, vejamos algumas das questões que foram objeto de comentários e réplicas de antropólogos citados direta ou indiretamente no texto.
O primeiro deles, Andrew Barry, da Brunel University (Inglaterra) alerta para a possível não-validade da discussão sobre o reconhecimento da antropologia como ciência, dado que as ciências naturais também apresentariam problemas elas mesmas em seus métodos, a preocupação deveria ser com o rigor no trabalho de campo, sem que se apressem a caracterizar a antropologia como uma forma de literatura experimental. Para ele, se a antropologia não possui características distintivas, deve demonstrá-las e não necessariamente assumidas. Em seguida, merece destaque o comentário de Clifford Geertz, que defende-se da acusação de que haveria afirmado quer a antropologia não poderia ser uma ciência, na medida em que a etnografia assemelha-se a produções como poemas, novelas etc. Nega igualmente a afirmação de uma noção de um absoluto realismo atrelado à ciência, assim como diverge de outros antropólogos que, mesmo a considerando uma atividade humana, social e cultural, não a condiciona à busca de um “verdade absoluta”. Paul Roth desloca a discussão da cientificidade (ou não da antropologia), a partir da aplicação e conformação em regras metodológicas rígidas; a narrativa é privilegiada por ele como “forma de explanação”. Além disso, coloca a importância de que a descrição deve ser consistente o suficiente para ser considerada correta em outros campos de pesquisa. Robert A. Rubinstein sugere que nem a antropologia deve enquadrar-se nos parâmetros convencionais científicos ou em padrões estritamente literários.
Carrithers procede, ao final do texto, a um exercício de réplica aos comentários feitos pelos seus pares defende a abordagem de que as formas de narrativas utilizadas nas etnografias, desde aquelas que representaram marcos na história da antropologia, são fruto da depreensão e da maneira como o etnógrafo percebe os fenômenos que observa em campo. Os eventos observados, na análise de Carrithers, não refletem uma realidade geral, porém a observação do pesquisador naquele momento, que utiliza-se de elementos fornecidos pelos próprios sujeitos presentes no campo , e que, refletem na narrativa etnográfica, mais do que a descrição de eventos e expressões destes sujeitos, mas a própria impressão do pesquisador no momento em que observa e tenta construir significados sobre seu campo. A prática da etnografia, segundo o autor, envolve uma série de fatores desafiadores e passíveis de logro ou fracasso, considerando a escrita, inclusive como uma forma de potencializar o entendimento sobre temas pesquisados, ampliando através dela as possibilidades de fazer antropologia utilizando recursos que não apenas aqueles identificados com a ciência formalmente compreendida. O que o texto, sumariamente nos oferece, é a tentativa de Carrithers de conciliar os aspectos científicos da antropologia, com a adesão e utilização recursos normalmente associados à produção literária. A discussão sobre se antropologia e arte ou ciência, parece longe de um termo conclusivo, fato é que, os pós-modernistas a trouxeram para a arena. Se arte, se ciência, não se deveria tratar de uma escolha, mas de compreensão das alternativas possíveis do fazer antropológico atual.

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