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escritos, fotos e leituras à deriva... no momento, servindo de porto inseguro para a turma PPGA/UFBA 2009.
WEBSTER, Stephen. Dialogue and Fiction in Anthropology. In, Dialetical anthropology 7 (1982) 91-114.
Por Natelson Oliveira de Souza
O viés dos estudos antropológicos é essencialmente interpretativista, podemos assumir isso desde já. É esse algo entre a compreensão e a explicação que constitui o domínio do discurso antropológico e que faz dela uma das ciências mais vulneráveis em termos de produção de verdades. Admitamos. Mas, ao contrário, não podemos admitir, jamais, que o que fazemos e produzimos seja uma interpretação fortuita, sem lá muitos critérios. Quem assim o faz, certamente não pratica e nem pisa, mesmo que marginalmente, em solo fértil da antropologia. Se vivemos alguma crise epistemológica nos tempos atuais, certamente não é por fraqueza, mas por um espírito questionador rigoroso nascido na entranha de nossa ciência. A antropologia talvez seja uma das mais questionadoras, em se tratando de epistemes, das ciências humanas. Talvez.
É neste terreno que Webster parece semear e produzir, em seu artigo, suas idéias a respeito da relação entre hermenêutica e etnografia. Partindo de algumas evidências de que há neste campo uma compreensão mal resolvida entre certos filósofos hermeneutas e antropólogos, ele tenta resolver esse “falso” vazio que ainda persiste entre etnografia e hermenêutica, o que impulsionou ambos especialistas a se acusarem mutuamente a fim de estabelecer uma fronteira clara sobre o que cada um faz e a autonomia disciplinar em questão.
Webster, então, defende a idéia de que a própria hermenêutica é um genuíno alicerce do edifício das ciências sociais. E demonstra que a antropologia social constitui um abrigo natural nesta epistemologia porque sempre se confrontou com seus paradoxos e pré-conceitos com uma irredutível hesitação. Através do modo como pensamos sobre o que pensamos e o modo como escrevemos sobre isto (p.91).
Seu artigo é dividido em 3 seções que organizam sua argumentação. Na primeira ele tece algumas considerações sobre algumas etnografias clássicas e como seus autores constroem seus métodos de coleta e análise. Na segunda parte o autor revisita as contribuições da teoria hermenêutica nas ciências sociais e na terceira aborda os comentários de Geertz em relação à proximidade epistemológica entre Etnografia e Ficção.
Inicia-se no trabalho de Malinowski e a posterior publicação dos seus diários que revelavam os aspectos mais íntimos de sua situação de campo. Aspectos que ele manteve separado dos objetivos de sua pesquisa. Assim, Webster aponta que, até então, parece ser irrelevante buscar integrar estas duas situações ao trabalho etnográfico, ou seja, as inquietudes pessoais no campo e a observação objetiva que requer o trabalho de campo e as nossas escrituras.
Já Geertz, aponta o autor, chega a expor como fútil o ideal romântico da empatia entre antropólogos e anfitriões, contudo, negligencia suas próprias observações em outro contexto de suas pesquisas, quando diz ser tipicamente difícil a relação entre antropólogo-informante, contudo, é a ficção do bom encontro que expõe uma pesquisa bem sucedida, afirmando ainda, que em geral, há certa reciprocidade refletindo um acordo situacional, independente dos poucos motivos realistas para a adoção integral do antropólogo na comunidade anfitriã. Adiante, Webster afirma que, não diferente de Malinowski, em sua omissão etnográfica, Geertz poupa-nos de mais desconfortos e direciona o tema desta epistemologia da intimidade entre antropólogo-informante para a epistemologia do modo como o etnógrafo compreende o cenário em que está envolto. Enquanto Malinowski invoca o funcionalismo para assegurar a objetividade, Geertz recorre à variedade de interpretações como estratos interpretativos de nossa compreensão do campo.
Outra situação epistemológica e etnográfica que o autor converge às ironias de Malinowski e Geertz é a atitude ambivalente de Evans-Pritchard para com os Zande. Contudo, o autor afirma que Evans-Pritchard consegue ser mais sincero diante de seus informantes e de seus leitores quando assume inteiramente suas pré-noções, sem deixar, nesse caso, de respeitá-los. Pritchard escreve com as mesmas pré-noções positivistas de Malinowski, contudo, alcançando uma sinceridade etnográfica que Malinowski foi incapaz, porque ele não poderia, presume o autor, eliminar o seu diário de campo de sua etnografia. No caso de Pritchard, ele se deparou em campo com uma situação peculiar: a impossibilidade de experienciar, em seus próprios termos, aquilo que os Zande afirmavam ser feitiçaria. Outros autores concluem, como Winch, que a feitiçaria existe nos termos Azande e que deve ser entendida desta maneira.
Neste caso, Pritchard estava convincente de que nos termos Azande se tratava de uma ficção, muito embora tentasse convencer seus leitores da racionalidade prática das crenças Azande. Nesse sentido, muitos admiram o esforço epistemológico enquanto outros insistem na veracidade dos dados etnográficos, consistindo, até hoje, essas questões, como exemplos do dilema epistemológico da antropologia, e que muitos têm evitado confrontar este dilema.
Para Webster, a experiência existencial dessas diferenças em si que constitui o terreno fértil do entendimento antropológico, construído por “estranhos” que vivem juntos e que, portanto, constroem juntos ficções e afirmam verdades. Subjetividade e objetividades são outros elementos que estão imbricados, e para entendermos isto, cita Decartes: “penso, logo existo”, aqui a experiência concreta é formada em subjetividade e objetividade, portanto, a perspectiva epistemológica a qual Webster insiste, é que ambas, “subjetificações” e “objetificações”, são generalizações que ocorrem a partir de uma compreensão mútua no encontro entre antropólogo e informante, tanto a subjetividade quanto a objetividade existem nesse processo, no qual ele demonstra haver uma dialética entre verdade e ficção, da qual Geertz denomina de ironia antropológica.
II
Na segunda seção do seu artigo, Webster se ocupa da visão de Gadamer, um dos maiores expoentes da hermenêutica filosófica, apresentando alguns pontos de vista deste sobre a hermenêutica. Numa crítica a Dilthey, Gadamer afirma que a inconsistência de sua teoria está no fato dele separar o círculo hermenêutico do contexto histórico e existencial do intérprete. Gadamer segue a postura de Heidegguer, quando incorpora o intérprete ao círculo hermenêutico, no sentido de que a compreensão só se torna possível diante de um diálogo intersubjetivo, num diálogo que constitui um produto de dois pontos de vistas diferentes, pois é nesse contexto que se apresenta a dialética do entendimento. Como consequência, todo conhecimento constitui uma unidade efetiva de uma rede de ações recíprocas. Noutras palavras, um “outro” constituído da visão de mundo do observador e do observado, formando assim a “afinidade”, ou, na visão de Devereaux, uma complementaridade entre observador e observado. Mas, Giddens, segundo webster, aponta o problema da desigualdade de significados que costuma acontecer como ocorre na obra de Evans-Pritchard, a questão da feitiçaria Zande e o ceticismo inglês, o que é relatado pelos Zandes costuma ser tomado por metáfora, pelo relativismo cultural, ocorrendo assim, uma força desigual na compreensão da realidade social. Assim, o autor diz que, a insistência hermenêutica na reintegração do intérprete no objeto de conhecimento parece colidir com o relativismo cultural e convida e legitima o etnocentrismo. No entanto, Webster diz que esta aparente contradição pode ser resolvida recorrendo a Gadamer quando este se posiciona contra a imposição do tradicionalismo ou conservadorismo.
III
Na terceira e última seção, Webster indica, ancorado em Gadamer, que essa aparente dificuldade, essa “ironia antropológica” de Geertz, é realmente a reivindicação da verdade etnográfica, até mesmo com aquilo que há de mais desconfortável, como as mentiras, a má-fé, “auto-deception”, etc. Tudo isso constitui elementos na interpretação reivindicada pela etnografia atual. Tudo isto agora está embutido na longa história do conhecimento, o que faz com que a visão positivista de uma verdade única seja revelada como meramente utópica. Não podemos mais traçar, diante disso, uma linha que difere o que é verdade de ficção de forma tão simplificada como costumamos fazer. Webster apresenta as posições de alguns colaboradores na defesa desta nova postura, a exemplo de Ricoeur, quando este afirma que a narrativa é a base epistemológica comum do texto, da ação social e da história. Nesse sentido, esses três elementos formam a operação pela qual o narrador conta uma história e seus expectadores ouvem. Esta narrativa decorre da experiência e perpetua um consenso que, por sua vez, apresenta a complementaridade entre narrador e ouvinte; observador e observado. Webster ainda nos demonstra as técnicas padrões usadas na construção do texto etnográfico, num sentido claro de manipular a narrativa com intuito de prestigiarmos a objetividade do trabalho, como exemplo, a recusa sistemática da escrita na primeira pessoa do singular “eu” ou “mim”. Contudo, raramente há um esclarecimento sincero das condições básicas do entendimento, no trabalho de campo, da duração deste trabalho; a forma e o grau de aceitação pelos anfitriões; fragilidades teóricas, etc. Em nome de uma suposta objetividade, omitimos desconfortos enfrentados em campo, que julgamos, por conveniência, irrelevantes para a construção da realidade social, a qual o trabalho objetiva.
Enfim, a conclusão do autor, Webster, é que a teoria narrativa pode tornar mais claro para nós, o diálogo implícito tanto no trabalho de campo como em etnografia, e ajudar-nos a superar o dogma que obscurece a dialética inerente entre ficção e verdade, que diz respeito às nossas pretensões em alcançar uma “ilusão” de transparência, a verdade através de inocentes ficções. Num fechamento triunfal do texto, Webster diz: “A etnografia deve estar aberta às contingências de sua textualidade assim como ocorre com na experiência social concreta em que se baseia".
Imagem: Ricardo Machado
"Certamente é um sujeito que ficou a ver navios."

Barquinho em Cachoeira-BA
BOLOGNA, Corrado. Voz. In, Enciclopedia Einaudi, volume 11, criatividade – visão. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1987 (pp.
Carolina Santana[1]
Diferente de outras obras de referência, ao se recorrer Enciclopedia Einaudi para consulta de um assunto, o leitor se depara não com um simples verbete, mas sim com um artigo sobre o tema pesquisado. Tal é o caso do trabalho de Corrado Bologna, professor de Filologia Romântica interessado no estudo da vocalidade medieval e moderna, onde aborda com riqueza e amplitude a questão da Voz.
Bologna apresenta de forma sistemática as idéias tratadas no texto através de subtítulos enumerados, oferecendo ao leitor um panorama de sua abordagem, dividida em dois principais eixos temáticos: a metafísica da voz e a antropologia da voz. Tal recurso garante objetividade ao texto, além de eventualmente despertar a curiosidade com enunciados como “A voz do corpo e as paixões da alma”, “O nome impronunciável” ou mesmo “A voz do silêncio”. Se por um lado adota um formato prático para apresentar sua argumentação, por outro envereda de modo quase poético em sua análise e esse “tom” é dado logo no primeiro parágrafo, em sua definição da voz:
“Antes mesmo de ser o suporte e o canal de transmissão das palavras através da linguagem, a voz é um imperioso grito de presença, uma pulsação universal e uma modulação cósmica através de cujos trâmites a história irrompe no mundo da natureza”. BOLOGNA (1987, p.58)
Temos então, como desafios simultâneos, acompanhar o ritmo do autor, buscando em suas alusões e alegorias o sentido de suas reflexões, e tentar compreendê-las criticamente, contrapondo-a as nossas próprias considerações. Esse exercício de “ajuste” ao estilo do texto pode ser incômodo inicialmente, exigindo a releitura de parágrafos inteiros, sensação passageira substituída logo pela surpresa, já que por inusitados caminhos ele apresenta uma abordagem intrigante sobre a voz, desvendando potencialidades e significados, articulando natureza e cultura através da filosofia e da antropologia.
Na primeira sessão, em que trata da metafísica da voz através do pensamento de diversos filósofos, parte do pressuposto de que a voz é uma presença que está inextrincavelmente ligada aos fenômenos corpóreos que precedem à consciência, sendo portanto distinta da palavra e da linguagem. Nesse sentido, ressalta que a voz não é exclusividade dos seres humanos, visto que os animais possuem sua voz, ainda que vazia e desprovida de conteúdo específico, ao passo que os humanos negam e articulam o som dessa voz, tornando-a voz sonora, linguagem significante. O lógos é tomado como união do pensamento e da vocalidade, nele desaparece a voz pura, dando lugar à palavra, gerada pela união entre voz e sentido. Mas antes desta transformação, a voz da origem é um fluxo corpóreo “modulado a partir da respiração e do sangue que irriga os pulmões” BOLOGNA (1987, p. 60), que “para se transformar em pensamento é obrigada a tornar-se perceptível por palavras”. BOLOGNA (1987, p.61). A voz, como o mythos, é algo indizível, que precisa “adotar a carne da linguagem para se tornar visível” BOLOGNA (1987, p.62), de modo que a linguagem provém da voz e não o contrário.
Considerando a existência de uma voz interior e outra exterior como ressonâncias recíprocas, aponta o potencial discursivo do silêncio através das práticas sacerdotais, que envolvem mistérios não revelados, e da oração interior: silenciar os sentidos e a mente promoveria a purificação do espírito. Revestido de autoridade divina, o silêncio sinaliza o indizível, a distância infinita de Deus, e é através do lógos que os segredos são traduzidos e interpretados, buscando revelar o Invisível-Indizível. Assim, a palavra é incorporada à voz tal como a mistura da alma e do corpo. Para Bologna, é justamente o controle sócio-comportamental da voz e das palavras que leva a metafísica da voz a desdobrar-se numa antropologia da voz, sendo possível vislumbrar a passagem do “dado natural” a “estrutura simbólica”.
Passando à segunda sessão, que trata desse desdobramento, apresenta a teoria da voz e da palavra dos Dogons africanos, estudados por Marcel Griaule, para ilustrar como a ritualização e controle rigoroso da voz a torna um instrumento comunicativo. Para os Dogons o mundo estaria dividido entre “seres que falam a palavra” e “seres que não falam a palavra” BOLOGNA (1987, p.73), ou seja, todos têm em comum a voz, mas nem todos a articulam de modo ritmado. Ato e palavra estão, portanto, intimamente ligados: a fala é resultado da ação e é a voz que dá vida ao discurso; a palavra é a projeção sonora do homem no espaço. A qualidade da voz, feminina ou masculina, e do seu exprimir-se, o tom com que a palavra se manifesta, refletem uma lógica estrutural para os Dogons, assim como para outros povos, como os chineses antigos que dividiam a vibração em ativa, quente e viril (yang) e passiva, fria e feminina (yin), ou os hindus que consideram a respiração e a palavra energias simultaneamente espirituais e sexuais. Entretanto, o autor ressalta que tal caráter comunicativo da voz sofre uma redução drástica no contexto dos esquemas sensóricos e epistemológicos da cultura alfabético-textual, estando subordinado aos cânones da textualidade.
Quanto ao timbre da voz, é tratado metaforicamente como seu sexo, indicando sensualidade, e, ao mesmo tempo, determina o pensamento, na fonação e na entonação, “com base em mutações nem sempre conscientes do ‘tom’ psicológico” BOLOGNA (1987, p.79). Desse modo, indica a existência de uma codificação da voz, ilustrada a partir da economia simbólica da cultura cerimonial, a chamada “voz de salão”: voz e palavra são dissimuladas e simuladas, “a fim de adequar a aparência ao catálogo normativo das retóricas sociais” BOLOGNA (1987, p.80). Estabelecendo-se um modelo da vocalidade correta, aplica-se uma “fisionomia da voz, caracterizando um paralelismo exato entre o timbre, o tom vocal do indivíduo e as respectivas qualidades do seu caráter” BOLOGNA (1987, p.81). É precisamente essa ritualidade que permite à natureza conservar-se na cultura, pois é preciso controlar a voz se se deseja participar do corpo social:
“(...) aquilo que mais pesa é a capacidade de educar a voz, preparando-a para o silêncio ou para a palavra, adequando-a a gestualidade controlada, orientando a espontânea sonoridade para a manifestação, ou então para a dissimulação, das intenções (dos sentimentos)”. BOLOGNA (1987, p.81)
Já na reta final de sua argumentação, trata do valor demiúrgico da voz na cultura ocidental moderna através da relação paciente e analista, onde a voz é o principal elo entre eles, oferecendo passagem ao simbólico e cuja interpretação cabe ao psicanalista. Ressalta que a voz tanto pode gerar doenças como pode curar o mal invisível, estando a eficácia da palavra mágica dependente do modo como ela é emitida. Também considera as conseqüências da era tecnológica-eletrônica na restituição do vigor ao auditivo e ao oral, diante do surgimento de modalidades inéditas de percepção e de instrumentos de transmissão inesperados como o telefone e o gravador -- o primeiro garantindo a possibilidade de ouvir à distância, sem ver o corpo de quem fala, o segundo prometendo a imortalidade da voz -- cristalizando sua presença.
A riqueza das contribuições oferecidas pelo autor pode ser aproveitada por profissionais de diversas áreas, mas para os antropólogos em particular elas destacam aspectos que nem sempre são encarados conscientemente. A voz é um dado fundamental na prática etnográfica, tanto nos diversos momentos da interação entre o etnógrafo e seus informantes, como posteriormente, quando o pesquisador transcreve as entrevistas gravadas. Ouvir a voz, ou melhor, as vozes, avaliando timbres, tons, interpretando intenções e motivações, é tarefa do antropólogo, tanto quanto ouvir os silêncios, as pausas e os suspiros. Entre tantos elementos a serem desvendados e interpretados na lógica do social, a modulação, o controle (ou descontrole) da voz pode passar despercebido, fazendo parte da análise de forma implícita, quase intuitiva. Bologna oferece nesse artigo a possibilidade de reconhecermos e tornarmos visível o poder do som articulado, atribuindo-lhe conscientemente a merecida importância. Desse modo, no exercício da escuta, o antropólogo precisa estar atento: é através da voz que o informante pode revelar o que não é verbalizado. É na transformação da pulsão sanguínea e do fôlego em palavra articulada que muitas pistas são reveladas e enigmas podem vir a ser desvendados.