por Bruna Pastro Zagatto
O artigo trata de uma reflexão do autor, apresentada em uma palestra em 2001, em Boston, acerca da construção da narrativa histórica em seu próprio trabalho.
Price inicia dizendo que até meados de 1960, a monografia antropológica mantinha-se fiel a um formato razoavelmente uniforme e aparentemente natural. Até então os antropólogos não pensaram muito na forma de escrever, na narrativa do texto, como se houvesse um tabu estilístico.
Com o fim do período clássico da antropologia, que segundo Stocking Jr (1992:357) foi entre 1925 e 1965, Price e colegas de pós-graduação, após voltarem do trabalho de campo à vida acadêmica, começaram a escrever livros de uma perspectiva literária, diferentes com as monografias com as quais tinham crescido. Os anos 1970 e início dos anos 1980 foram marcados por uma mudança radical na forma de se escrever etnografia, simbolicamente marcada pelo surgimento do trabalho coletivo Writing Culture em 1986 (Clifford; Marcus). Segundo Price, um grupo de antropólogos de sua geração “avaliou a situação e corajosamente declarou que antropologia possuía não somente uma política, mas também uma poética. Aquilo que veio a se chamar de “a virada literária” (PRICE, 2004:297).
Clifford Geertz, resumiu apropriadamente os novos desafios dos anos 1980, que vinham tanto de dentro como de fora da disciplina, uma vez que houve uma transformação das populações geralmente estudadas pelos antropólogos, ao mesmo tempo em que os fundamentos morais da etnografia estavam sendo abalados, assim como suas bases epistemológicas também tinham sido questionadas por outras disciplinas.
Em meados dos anos 1970, Price começou a fazer experiências com narrativa, influenciado pela literatura e pelo cinema (e suas respectivas técnicas não lineares de narrativa), tentando “combinar preocupações teóricas com a política da representação a soluções práticas envolvendo a poética da representação” (2004:298). O autor defendeu que “situações históricas ou etnográficas diversas prestam-se a formas literárias diversas (e vice-versa), e que o etnógrafo ou historiador deveria agora encarar cada sociedade ou período – ou, nesse aspecto, cada livro potencial – de uma forma nova e inovadoramente problematizadora, buscando, ou mesmo inventando, uma forma literária que não viesse pré-selecionada ou já pronta, de modo a evocar eficazmente aquela sociedade específica, ou aquele momento histórico específico.” (Idem)
A partir desta contextualização, o autor faz uma análise de sua própria produção literária, dialogando com a crítica do jornalista holandês Anil Ramdas sobre a mesma, apresentando um artigo onde descreve seu envolvimento, durante as décadas de 1970 e 1980, com experimentos em narrativa (com a justaposição das vozes de colonizadores e colonizados), para evocar o passado dos maroons saramakas (quilombolas) do Suriname.
O autor afirma ter iniciado sua carreira publicando escritos no formato da clássica monografia antropológica (sua dissertação), partindo, depois disso, para a experimentação textual, utilizando diferentes layouts de página e estilos tipográficos diversos.
Em seu primeiro livro, First-Time (1983), Price estava extremamente preocupado em representar “verdades parciais” e apresentar narrativas alternativas e múltiplas vozes históricas, tentando expor o passado dos saramakas em termos saramakas, baseando-se nas versões que eles mesmos desenvolveram para manter viva sua própria história.
Dentro dessa mesma complexa teia de preocupações epistemológicas, morais e ideológicas, discutidas em linhas gerais na introdução de First-Time, surgem outras vozes (além das vozes saramakas) em seu segundo livro, Alabi’s World (Price, 1990). Embora tivesse continuado a se manter fiel aos modos de compreensão histórica dos saramakas – que constituem a identidade coletiva e a raiz do que significa ser saramaka - esse trabalho acrescenta diversas camadas novas de mediação e interpretação.
Há quatro vozes distintas (dos Saramankas, dos morávios, dos holandeses e do próprio autor), na qual Price sugere que a compreensão histórica surja a partir da atenção dada às suas “interações”. Foram utilizados quatro estilos tipográficos diferentes para enfatizar o perspectivismo de suas várias fontes históricas, levando adiante o experimento de multivocalidade. Segundo o autor “há uma intersubjetividade consideravelmente maior, mudanças mais rápidas de perspectiva e mais grãos para o moinho hermenêutico. O leitor é deliberadamente convidado a participar de maneira mais ativa que de costume do ato da imaginação histórica.” (2004:300) Nesse sentido, o esforço é de ter atenção permanente ao significado (hermenêutica etnológica), ao processo de produzir histórias, às relações entre o pesquisador e os sujeitos históricos pesquisados, aos processos de conhecimento e aos problemas da forma de se observar a totalidade.
Anil Ramdas observou que os livros que Sally e Richard Price começaram a escrever nos anos de 1990 assumiram formatos mais fragmentados, misturando os gêneros de diário e memória, alguns incluindo desenhos, alguns narrados como peça teatral ou em forma de romance. No entanto Price analisa que além deles, inúmeros historiadores e antropólogos passaram essas últimas décadas examinando a construção das histórias que as pessoas contam ao próprio respeito e os meios retóricos que usam para persuadir os outros e experimentando narrativas na fronteira entre a verdade histórica e a ficção.
No livro The Convict and the Colonel (Price, 1998) - que o autor considera como seu trabalho mais significativo tanto para historiadores como para antropólogos - apresentam-se questões instigantes, como por exemplo, como se chegar ao relacionamento entre fato e ficção, verdade e fantasia, passado e presente, trabalho de campo e memória dos relatos etnográficos. Mais do que em qualquer outro livro, Price aceita o desafio de narrar a história da Martinica do século XX de maneira bem complexa, reescrevendo o tempo tanto de si mesmo como dos martinicanos, que foram objeto de estudo.
O livro é narrado a partir de desvios temporais, flashbacks, cortes, fotos e layouts de página incomuns, sem uma narrativa dominante, jogando o leitor de um lado ao outro no tempo e no espaço, assim como ocorre no cinema. Embora também utilize vozes narrativas, no geral o livro foi estruturado pelo próprio jogo que faz com o tempo, o que, segundo o autor, tende a trazer as rupturas e descontinuidades diretamente para o primeiro plano. Cada público (acadêmicos norte-americanos e martinicanos) fará leituras disso de formas completamente diferentes.
Richard Price observou, a partir de sua própria experiência de mais de três décadas, que a ampliação das possibilidades de experimentação narrativa e a inovação nas estratégias de se escrever história foram bastante enriquecedoras e libertadoras para a criação de uma nova etnografia.
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