Resenha:
MODICA, M. “Imitação”. In: Enciclopédia Einaudi, v.25, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda
Por Agrimária (Guiu)
O texto trata da complexidade da noção de imitação e o seu sentido polissêmico. Faz um balanço teórico do uso dessa noção em termos gerais, atendo-se ao campo das artes, principalmente das artes figurativas e literárias.
O primeiro tópico intitulado “a arte imita a natureza”, começa por discutir uma das questões centrais do texto, relacionada aos usos da noção de imitação na obra de arte. Em primeiro lugar, refuta-se a hipótese de que a imitação seria uma simples “reprodução da realidade natural, do objeto tal como ele é” (p. 12). Para discutir a relação modelo e cópia a partir de diferentes perspectivas (históricas e culturais), o autor faz referência à aspectos da cultura Helenístico Romana, cultura grega, da Idade Média e do Renascimento.
Acerca dos seus diversos sentidos, a imitação podia ser entendida como o ato de produzir baseando-se num modelo natural (a imitação se produz à maneira da natureza), num modelo ideal (presente na cultura helenístico-romana e nos neoplatonistas que defendiam a imitação da idéia, detentora da perfeição tal qual não existe na realidade sensível; a beleza das coisas emanaria mais do espírito do artista que do “objeto” em si), pela reprodução de um modelo padrão (clássico) preexistente. Outros pontos de vista, a exemplo das concepções realistas, afirmam que “a arte consiste na imitação da realidade natural” (p.13). Na poética renascentista é forte essa idéia de que a arte deve imitar a realidade, de modo a aperfeiçoá-la (a idéia das medidas e proporções perfeitas), sendo a beleza artística a expressão da “verdade” das coisas. Essas divisões não se apresentam de maneira exclusiva em uma mesma tradição cultural.
O autor pontua, diante o panorama apresentado, que “pelo menos a partir da primeira metade do século XVIII, começa-se a assistir à crise do conceito de imitação e mais particularmente da tese de que a arte imita a natureza.” (p.15)
Modica procurar traçar as origens do conceito de mimese na cultura grega para observar os sentidos subjacentes desde sua origem. O conceito de imitação é um termo originado da tradução da palavra grega mimesis, que em seu significado original equivaleria mais às noções de representação e expressão, relacionadas principalmente ao campo das artes representativas, que pressupõe a idéia de ator (mimos) e de interpretação (mimeomai). Observa que a noção de mimese ou imitação, desde o sentido original, não se trata de simples e mecânica reprodução de uma dada realidade.
Já em Platão o autor observa uma concepção sobre a arte que faz relação com elementos tanto internos como externos à própria arte, negando em ver a esfera do estético independente de outras esferas (a exemplo da ética e da teorética). A partir de sua concepção filosófica, Platão afirma que a imitação seria desencadeadora de processos irracionais, que leva o poeta a representar fatos que não correspondem à verdade, em desconformidade com a verdade universal das idéias. Para ele uma imagem nunca representa algo na plenitude e acabamento das suas propriedades (p. 18). O juízo que Platão faz do sentido de mimese é que esta é sempre imperfeita, e sua concepção expressa uma relação de valor descendente, do modelo à cópia.
De Aristóteles o autor retoma principalmente a conexão, presente em suas obras A poética e A retórica, entre atividade imitativa e operação intelectual do reconhecimento, qual seja, da “conformidade da cópia com o objeto imitado”, que por si só é capaz de produzir prazer. Este prazer parte de uma operação de reconhecimento, um princípio de identificação que se estabelece em termos cognoscitivos (p. 20). “O prazer não deriva do referente ou objeto imitado, mas do raciocínio que acerca dele se faz, e mais particularmente do acerto e da avaliação da equivalência entre um certo conjunto de traços próprios do modelo e os que são respectivamente próprios da cópia” (Aristóteles apud Módica, p.21)
Essas questões aparecem como arcabouço para a argumentação de que atividade imitativa comporta a referência a um conjunto de normas e valores constituídos, e que a relação modelo cópia (objeto e imagem) prescinde de técnicas e características formais que permitem sua elaboração em conformidade com determinados padrões (ou em oposição aos padrões), que regulam a percepção em relação ao seu referente externo. (p. 21)
Ainda retomando Aristóteles, o autor discute a concepção de linguagem como atividade mimética que tem no suporte simbólico toda sua fundamentação. A relação entre significante e coisa, a conformidade do signo lingüístico com o real não corresponde a uma necessidade de cunho natural, mas antes, convencional. O caráter simbólico está, portanto, presente no processo imitativo, quando se entende que a mimese perpassa elementos cognitivos. Uma representação ou figuração se faz por meio da seleção de determinados caracteres e signos, e este se dá sob “uma ordem específica de convenções e valores que regem não só a construção, mas a própria percepção da imagem”. (p. 23). Existe sempre uma margem de variação no interior de um mesmo gênero ou código literário ou figurativo, mas de onde se pode de algum modo observar traços e características formais e preceptivas que permitem distinguir uma tradição cultural de outra.
Segundo Modica a figuração e a linguagem partilham a mesma tendência para interpretar a realidade, comunicá-la e torná-la simbólica. (p. 25). Tudo leva a crer que a figuração prescinde da linguagem e ambas da função simbólica. Os processos imitativos são sempre simbólicos e convencionais, entretanto a arbitrariedade no sentido forte, só se verifica no campo formal, visto que no campo do uso ele passa a ser motivado pelas normas do contexto.
De acordo com o autor, apoiando-se nas reflexões de Gombrich (1959) (historiador da arte inspirado no método iconológico e nas idéias de Panofsky, representante dessa ala de estudo), uma tradição figurativa condiciona uma determinada percepção, é construída por meio de um conjunto de regras, valores e técnicas preestabelecidas, e que conforma um modo particular de apreciação e de expectativas. (elementos que influenciam na leitura de uma obra figurativa ou literária). “Todo ato imitativo pressupõe uma tradição no interior da qual se elabora um conjunto de regras, normas e convenções que marcam a codificação, mais ou menos institucionalizada, de soluções figurativas em tempos ‘originais’. Mesmo as ‘inovações’ mais fortemente caracterizadas em sentido ‘criativo’ pressupõe sempre uma relação diversamente especificável com precedentes sistemas de normas” (p.28). A tendência iconológica leva em conta a história das formas, “do sintoma e forma simbólica da atitude de fundo de um povo e de todo um período” além da “iconografia, e da mais vasta investigação dos contextos temáticos e a interpretação dos valores simbólicos” (p. 29).
Para desenvolver este argumento, o autor analisa e discute a arte figurativa por meio da apresentação de algumas características da arte medieval, da imitação de uma imagem realizada por uma criança e da arte figurativa de cunho mais “realista” do renascimento. A relação modelo cópia no primeiro caso, se dá por meio de sistemas pouco diferenciados, da apresentação de um esquema mínimo necessário, com base na apreensão de códigos de representação e de formas específicas e convencionais, no qual é possível realizar uma figuração (imagem) e estabelecer a sua relação com o modelo(objeto). Também este princípio está presente no desenho da criança que reproduz uma imagem, mas esta o faz de acordo com a representação (cognitiva) e da experiência sensorial que possui do objeto. Nesta arte medieval contaria menos a reprodução da aparência em si que a utilização das formas habituais, dos sinais gráficos que o artista possui de antemão (mas que também elabora ou modifica). A representação de um objeto em geral “corresponderia plenamente a certos esquemas representativos amplamente partilhados, reduzidos a convenções gráficas simplificadas, e em todo o caso capazes de influenciar o próprio reconhecimento do objeto ‘imitado’” (p. 32). (Esse pressuposto da convenção destes códigos é válido para um dado período histórico ou para um grupo representativo de determinadas camadas sociais?).
O autor pontua, corroborando com Arnheim (1969), que não se pode efetuar uma oposição (tradicionalmente aceita) entre conhecimento conceptual e perceptivo neste campo da figuração. Nos processos artísticos e perceptivos o “ato de ver implica ao mesmo tempo o ato de aprender os traços essenciais”. Todos esses processos imitativos, e mesmo nos de cunho mais ilusionísticos, como aqueles que caracterizam a tradição figurativa do Renascimento, operam-se por meio de esquemas (não abstratos) e repertórios de fórmulas (institucionalizado de modo mais rígidos em determinadas formas artísticas, a exemplo da medieval).
Na arte realista do Renascimento (supostamente mais científica, pelo uso da geometria, por exemplo) este esquema aparece como ponto de partida sucedido de sucessivas adaptações em vistas de transmitir o mais próximo possível a percepção do artista, o que não significa a ausência do convencionalismo, pois essa “imitação” é sempre perpassada pelas atitudes culturais e conceituais de uma dado período histórico ou tradição cultural. (p. 36).
A equivalência modelo cópia pode se dar por determinados traços ou funções que um objeto possui e ela dependerá sempre do aspecto que se pretende estabelecer tal relação (a apreensão das dimensões, das formas, da função, da luz, da cor, etc). Uma figuração nunca é uma simples réplica; a leitura de uma obra é sempre interpretativa. (último parágrafo p. 40)
No último tópico Literatura e mimese o autor faz a relação entre figuração e lingüística para afirmar que, assim como a primeira, esta também possui um caráter convencional. Mesmo a mimese na língua, a exemplo das expressões que buscam imitar sons provenientes da natureza e relacionar o signo com a coisa (a exemplo das onomatopéias), são dotados de convencionalismos, de modo que na língua não existe “reprodução de um som tal como ele é” (na natureza) assim como na figuração não existe “reprodução do objeto tal como ele é”.
Modica aponta para o caráter múltiplo e variado dos processos imitativos literários elaborado pelos mais diversos “códigos representativos, narrativos e descritivos, dramáticos e líricos.” Mesmo onde se pretende aproximar a escrita da realidade, torná-la sua expressão fiel, como no estilo realista, ele envolve uma multiplicidade de formatos. De modo que uma obra dita realista pode ser considerada para determinado(s) autor(s) como expressiva de uma dada realidade, autêntica, enquanto que para outros não. Sob o rótulo de realismo se tem uma mescla de tipos de narrativa e de perspectivas estilísticas variadas. Cabe pontuar, de acordo com o autor, que o importante é perceber “que não existe uma forma única de representação realista, contrapondo realismo a formalismo com a conseqüente condenação da experimentação e das vanguardas.”(p. 44) (explicar a oposição de Luckás- é real aquilo que reproduz o que é típico de um determinada sociedade e período histórico e Marcuse- não é puro realismo nem ficção, é real em sua dimensão)
O texto procurou analisar a forma como o processo imitativo se configura de diferentes maneiras e por meio dos mais diferentes significados, tanto nas artes figurativas como na literária, estabelecendo a complexidade da relação entre mimese e realidade empírica nestes campos. O processo imitativo é dinâmico e se estabelece por meio de critérios situados numa cultura particular. Se a percepção de algo é determinada histórico e conceitualmente, também o é a tentativa de sua representação.
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