“Se um viajante numa noite de inverno”: um exemplário literário da nossa antropologia labirintada?
Por Natelson Oliveira de Souza[1]
Na improvisação confusa do primeiro encontro, já se pode ler o possível futuro de uma convivência. Hoje vocês são cada um o objeto de leitura do outro, cada um lê no outro sua história não escrita.
Ítalo Calvino, p.160, 1999, [1979].
Este texto consiste num esforço em construir uma resenha crítica da famosa obra literária de Ítalo Calvino intitulada “Se um viajante numa noite de inverno”, uma de suas últimas criações com primeira data de publicação em 1979. Talvez o que eu apresente de novidade, dentre tantas resenhas feitas até aqui (pois se trata de uma obra-prima), é a possibilidade que me surgiu de fazer sua leitura sob olhar antropológico, como se esta obra, por fato, conferisse exemplos notórios dos dilemas que os antropólogos enfrentam ao nível da interpretação; da relação por vezes instável entre pesquisador/pesquisado; e das reviravoltas nas relações de poder que surgem no campo da antropologia, neste caso, na relação autor-leitor, no sentido de que o primeiro geralmente diz o que, para ele, o segundo deve saber. E assim, faz-se uma edição prévia da experiência de campo, construindo uma espécie de ‘realidade virtual’ que não existe senão no texto. O que este livro pode nos revelar sobre alguns tremores de terra que acometem o território da antropologia, quiçá somente em terrenos de alguns antropólogos? Quanto ele diz sobre nossos desassossegos naquele momento de interpretar dados de pesquisa com base em trabalho de campo etnográfico, no encontro e convivência com “o outro”?
Ao leitor, devo explicitar que as linhas que se seguem são uma mera tentativa de resenhar criticamente este romance, apresentá-lo, muito embora tentando demonstrar como as questões hermenêuticas aplicadas por Calvino numa ficção literária, estão intimamente conectadas àquelas colocadas pela antropologia interpretativa – afinal, escrevo este texto visando os colegas antropólogos, pois os imbróglios da interpretação tem se apresentado de tal maneira, que se tornou inevitável as reflexões sobre esse tópico a partir da década de 1970, com a emergência do pós-estruturalismo propagando-se feito epidemia nos vários campos do saber, sobretudo nos das ciências humanas e sociais.
Se um crítico numa noite de inverno:
“Até agora este livro tomou o cuidado de deixar aberta ao Leitor que lê a possibilidade de identificar-se com o Leitor que é lido [...].” (Calvino, p. 146), este trecho evoca bem as intenções do autor: construir um hiper-romance, um experimento literário que foge a todo o modo tradicional de se escrever um texto, um romance, um livro. Mas sem perder de vista sua estrutura. Esta se encontra presente embora apresentada ao leitor de outro modo bem inusitado. O que pensar quando, ao comprar um livro e lê-lo, toma um susto ao perceber que é você o protagonista? Descrito até nos hábitos, é você que conduz a história; é o investigador na trama que o envolve; como se fosse algo qualquer, ainda se flagra apaixonado por uma leitora e, de súbito, sentindo demasiado ciúme por ela. Calvino projetou o Leitor para leitor masculino? Talvez, pois a Leitora participa de outra maneira, e também é você, leitora. Mas, como se não bastasse, o escritor a conhece porque você vai ao seu encontro, leitora, e, acometido também de ciúmes, ele maquina maneiras de fazer você, leitor, viajar para muito longe a fim de afastar-lhe da paixão que vocês passam a dividir. Ainda se mostra ironicamente generoso: “Claro, sem uma personagem feminina a viagem do Leitor perderia a animação: é preciso que encontre outra mulher em seu percurso. A Leitora poderia ter uma irmã.” (Calvino, p.202).
Tentei produzir acima o tipo de jogo de espelhos que é encontrado no livro à medida que avançamos na leitura, sabe Deus – e você – se obtive êxito. O que quero dizer é que Calvino a todo o momento transpõe nós, leitores externos, assim como os personagens, a dimensões existenciais diferentes e fluidas, inclusive ele próprio quando se suprime autor da obra. Saímos e entramos no espaço virtual do livro, aquele que vai além do livro físico, impresso. A intenção, penso, é nos demonstrar que mudanças de perspectivas resultam literalmente em realidades diferentes, recombinadas.
Voltemos à história. O leitor entra numa livraria e compra o novo livro “se um viajante numa noite de inverno” de Ítalo Calvino. Quando começa a lê-lo, percebe uma falha na edição. A história se interrompe na página trinta e começa outra história diferente – inclusive esteticamente – na página posterior que é interrompida da mesma forma e na melhor parte, feito novela, mas sem próximo capítulo. A partir de então a trama o envolve por inteiro. É intrigante e diz respeito a um roubo de romances inacabados de autores não tão conhecidos de países diversos, e, por vezes, manipulados a ponto de tornar tão misterioso o real autor da obra. Como textos apócrifos. Ao todo ,Calvino nos propõe dez romances inacabados e de estilos distintos que fazem o leitor querer lê-los até o fim, se aborrecer e partir a investigar o acontecimento intrigante junto com sua amiga leitora.
O romance não possui uma exata linearidade e é todo fragmentado, de tal modo que o leitor pode construir seu roteiro a bel prazer (há controvérsias). Mas a 'estrutura' está ali e nos envolve perfeitamente bem em seu movimento ao 'pós'. Vamos até o fim e não implica nos perdermos em algo que nos satura em desentendimentos, a ponto de ficarmos aborrecidos senão por sabermos o fim da história que se interrompe justamente em seu clímax. Isto é o que nos instiga a continuar com o livro que temos em mãos, independentemente de sabermos que vamos começar outra nova leitura a partir da interrupção – o que faz com que entremos em perfeita consonância com o Leitor personagem, como se fôssemos uma só pessoa. Eis o jogo de espelhos. A 'estrutura' da obra nos convida a múltiplas possibilidades de leitura, a um labirinto de interpretações, todas passíveis de verdade mesmo que distintas – já não seria mais tempo de limitarmo-nos a verdade no singular. O que é provocado em nós é a necessidade de buscar uma coerência na narrativa; de capturarmos o fio da meada das diferentes histórias narradas; de transformar a não-linearidade criada pelo escritor numa linearidade também criada pelo leitor, como um resultado possível dentre outros, um resultado múltiplo. Um dos exemplos da multiplicidade da leitura é quando somos surpreendidos pela presença de outro autor, o livro que temos em mãos de repente é indiciado como criação de um dos seus personagens – o autor-personagem Silas Flannery (cap. 8, p.202) – e não necessariamente de Calvino. Este nos dá uma pista de sua intenção: “[...] este é o momento (na história da cultura ocidental) em que aqueles que buscam realização por meio do papel não são apenas indivíduos isolados, mas também coletividades [...]. A figura do autor se tornou plural e se desloca sempre em grupo, porque ninguém pode ser delegado a representar ninguém [...].” (Calvino, p. 100).
O que podemos dizer a partir daí, é que é uma obra que tem em sua centralidade, além da busca pelo prazer em ler, a questão da multiplicidade do modo de narrar e, consequentemente, dos modos de ler e escrever; como entrelaçamos essas narrativas para construirmos uma história para nós coerente. Contudo, atentemos bem, como uma história composta de outras que lhe permite a unidade numa espécie de pasticho. Encontramos então, ao nos procedermos assim, outros autores, outros personagens, outros leitores fundidos na interpretação daquele que escreve para nós, assim como nas nossas próprias escrituras. Qualquer dessas operações (narrar, ler e escrever), significa 'recombinar', como se num caleidoscópio, experiências que de algum modo já existem e co-existem. Como Calvino diz na epígrafe deste texto, “Cada um lê no outro sua história não escrita”.
O que diz sobre Antropólogos e Antropologia?
Isso muito diz, penso, dos antropólogos e suas situações de campo. Sempre, ou quase sempre, se defrontam com um obstáculo: o modo como é e deve ser estabelecida a sua relação com os anfitriões. Nos primórdios da antropologia se prezava bastante pela empatia, como se fosse possível acontecer naturalmente. Malinowski manteve seu polêmico diário de campo bem apartado dos dados de sua pesquisa, por conta disso, o leitor percebe claramente, mesmo que falsa, uma idéia do bom encontro em seu trabalho. Evans-Pritchard, entre os Azande, defrontou-se com mais outra situação difícil, desta vez no plano interpretativo, da qual se viu obrigado a propor ao leitor, um determinado tipo de leitura para qualquer possibilidade de entendimento sobre a bruxaria Azande em seu contexto (V. Webster, 1982). Enfim, o que tento demonstrar com isso é que quanto mais difícil é a relação antropólogo-informante, mais difícil será também a relação antropólogo-leitor, pois o primeiro sempre se vê, no momento de sua redação, numa situação nada simples: como traduzir bem o mosaico de relações em que ele está envolto ao leitor distante de tal realidade? Como dar-lhe as informações por verdade e fazê-lo convencido? E se outros fizessem de modo visivelmente diferente por conta de uma nova recombinação de experiências entre pesquisador-pesquisado? Quais seriam os mais verdadeiros? Pois constatamos, nesse sentido, que toda situação de campo depende da equação pessoal do pesquisador assim como dos parâmetros próprios ao campo (Tolra; Warnier, 1997, p. 426).
Retornando novamente a Calvino, em sua obra ele demonstra outras potencialidades da escrita e da leitura, para além daquela tradicional que impõe uma estrutura fixa com começo, meio e fim; com autor, personagem e leitor, enfim. Nesse sentido nos traz à tona a possibilidade de recombinações, até mesmo de metamorfoses, tal qual ocorre na teoria do perspectivismo ameríndio, que revelam a multiplicidade das coisas. O real e o virtual se (con)fundem. Ao contrário do que podemos pensar, a antropologia nunca deixou de reconhecer e pensar esses problemas em sua textualidade, ela sempre confrontou seus paradoxos e pré-conceitos, sempre admitiu o questionamento de seus dados através do modo como pensamos o que fazemos e sobre o modo como escrevemos sobre isto (Cf. Webster, op. cit.). Segundo Geertz, em O Saber Local (p.10, 1997), a antropologia está mesmo é dispersando-se em estruturas, no sentido de que a compreensão consiste em estratos de entendimento, como as recombinações postas por Calvino em sua ficção. O leitor de uma obra antropológica, neste caso, constrói uma experiência recombinada da tradução feita pelo antropólogo em relação à leitura feita pelo nativo de sua própria realidade. Nesse sentido, não quis utilizar o termo antropologia labirintada, no título deste texto, para designar algum estado de perdição da nossa ciência diante de tais circunstâncias, mas para demonstrar que é uma área do saber que tem admitido, desde cedo, possuir uma rede de possibilidades interpretativas, sobretudo, sem excessos de formalização estética e sem perder o rigor, tal qual o proposto por Calvino para a literatura ficcional pós-estruturalista através de “Se um viajante numa noite de inverno”. Como reconheceria Geertz, não terminei este texto, apenas o abandonei. Assim, deixo por conta do leitor tentar saber que história espera seu fim lá embaixo.
Bibliografia:
CALVINO, Ítalo. Se um viajante numa noite de inverno. 2ª Ed, Cia das letras. São Paulo, 1999.
GEERTZ, Clifford. O saber local. 7ª Ed. São Paulo, Vozes, 1997.
LABURTHE-TOLRA, Philippe; WARNIER, Jean-Pierre.
WEBSTER, Stephen. Dialogue and Fiction in Anthropology. In, Dialectical Anthropology 7 (1982) 91 – 114.
[1] Mestrando do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia.
*Imagem: A ver barquinhos na Ribeira (Cidade Baixa-Bahia-Brasil).
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