
Autor: Hildon Carade
MECCHIA, R. Imaginação. In: Enciclopédia Einaudi, v. 25, Criatividade – Visão. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1992. p. 48-57.
Em uma espécie de sinopse, que aparece sempre ao final de cada verbete da Enciclopédia, Mecchia nos chama a atenção para aquilo que será pontuado durante todo o texto: as diversas formas com que o termo 'imaginação' pode ser empregado. Desde já, neste epílogo reiterativo, o autor pontua quais foram as formas dominantes de emprego do termo. A esse propósito, temos a imaginação imitativa ou reprodutiva, vista em oposição à imaginação criativa ou construtiva (sobretudo de imagens, apressa-se em enfatizar o autor).
Para dar conta dos diversos sentidos do termo (e suas possíveis reviravoltas), Mecchia começa sua explanação incumbindo-se de fazer uma espécie de exegese do verbete 'Imagination' escrito por Voltaire para a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert. Já neste texto o autor vislumbra a 'ambiguidade e amplitude' do termo 'imaginação'.
Segundo Mecchia, apesar de Voltaire não abordar todo o espectro cultural francês e inglês de seu tempo, o artigo da Encyclopédie consegue estabelecer as pontes necessárias entre a imaginação e a possibilidade da produção do conhecimento, bem como demarcar o processo imaginativo como conditio sine qua non para o florescimento do trabalho artístico.
De acordo com o autor, Voltaire aproxima, sem contrapor, duas noções: a imaginação enquanto faculdade exclusivamente visual e a sua função abstrativa. Como consequências práticas, temos que o artigo contempla e discute o estatuto e o modo de funcionamento da imaginação em relação à noção de 'imagem', 'visão' etc.; assume a função cognitiva da imaginação; e identifica a faculdade da imaginação com o pilar da produção artística.
Observa o autor, haver certa identificação não resolvida entre imagem-visão-pensamento-linguagem, ou seja, entre o seu caráter cognitivo e a sua função abstrativa, que cabe uma melhor explicação. Assim, para lograr esse intento, o método de interpretação de textos a ser utilizado, principalmente nos casos em que um mesmo autor se cerca de acepções heterogêneas do termo 'imaginação', deve encontrar a sua validade em postulados mais gerais da cultura (ora, a imaginação não foi sempre a mesma).
Ainda centrando-se na Encyclopédie, o autor pondera que Voltaire condicionou a imaginação, no que tange ao seu papel no processo de produção do conhecimento, a uma relação de dependência para com a memória, como se ela fosse tão somente uma reiteração do passado, valorizando não a sua capacidade de produção, mas de contribuição para a existência do conhecimento. No entanto, quando Voltaire fala da imaginação em seu uso no campo artístico, 'polemicamente' ele exclui a tese de uma imaginação apenas visual. Esta possibilidade seria interessante apenas no momento de organização da experiência vivida.
Assim, segundo o autor, há uma oscilação entre a 'imaginação' enquanto capacidade abstrativa e a 'imaginação' enquanto reprodução passiva da experiência sensível. Ao fim e ao cabo da Encyclopédie, a imaginação termina por ser relegada ao campo artístico. Este casamento arte-imaginação implica em um divórcio entre a imaginação e o conhecimento positivo. Na melhor das hipóteses, considera-se ser de natureza distinta a imaginação utilizada no processo de conhecimento. Desta forma, a imaginação no campo da arte passa a ser identificada cada vez mais com o 'irracional', a 'fantasia', a 'quimera'. E nem adiantou uma figura tão eminente quanto a de Kant reivindicar, em sua Crítica da Faculdade de Julgar, o estabelecimento de um vínculo entre arte e conhecimento que permitisse a compreensão da experiência estética enquanto experiência cognitiva. Nos séculos XVIII e XIX, em se tratando da experiência estética, a cognição apenas foi tratada como “conhecimento intuito” ou “conhecimento do individual” do “singular”. O plural caiu no ocaso.
Assim, no último bloco do texto, com o intuito de discutir a que preço as teorias estéticas do século XIX puderam admitir ou refutar a tese da relação imaginação-arte e, por conseguinte, intentar uma recuperação dos valores cognitivos da obra de arte, o autor estabelece uma discussão com a estética italiana, mas precisamente com a tradição Croce-Della Volpe (termo, segundo ele, paradoxal, por englobar autores tão díspares).
Se, por um lado, Croce projetou uma autonomia do momento estético, através da identificação com o instante da intuição-expressão, por outro lado, Della Volpe considerou ser mister a apreciação, no processo de engendramento da obra estética, do componente intelectual enquanto tal. Em outras palavras, Della Volpe, fazendo jus ao seu materialismo dialético, objetivava recuperar o caráter cognitivo da produção e fruição artística. De acordo com o autor, mesmo negando, mais do que Croce, o vínculo imaginação-intuição-arte, por se deveras limitativo, Della Volpe não conseguiu se desfazer do problema de qual seria realmente o papel da arte dentro de uma determinada teoria do conhecimento e a ulterior necessidade de especificar este papel, evitando o risco de o confinar a um gueto artístico ou de fazer ressurgir o componente do 'irracional' enquanto natureza específica da imaginação na experiência estética.
Em verdade, pondera o autor, a preocupação de toda a estética italiana pós-idealista gira em torno da tentativa de recuperar a especificidade da obra de arte enquanto tal, evitando desta forma a utilização de categorias do espírito para a explicação da trama artística. Assim, sintetiza o autor, a condenação da imaginação a nível estético implica tão somente a assunção de uma das acepções do termo no espectro cultural do Ocidente: aquela em que a imaginação é concebida em termos de oposição à qualquer estrutura organizativa, esta vista como sinônimo de intelectualidade.
Portanto, as vicissitudes e as intercorrências vividas pela 'imaginação' estão em conformidade à esfera de atuação que os vários autores ofertaram à noção. E essa é uma história cheia de percalços, reviravoltas e surpresas. Assim, para fincar últimos exemplos, se, por um lado, um autor como Arnheim propõe novamente o privilegiar da percepção visual em nível conceitual e em nível artístico, por outro, um epistemólogo do quilate de Bachelard, revive em suas páginas a tentativa de um renascimento de algo como um logos da imaginação.
MECCHIA, R. Imaginação. In: Enciclopédia Einaudi, v. 25, Criatividade – Visão. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1992. p. 48-57.
Em uma espécie de sinopse, que aparece sempre ao final de cada verbete da Enciclopédia, Mecchia nos chama a atenção para aquilo que será pontuado durante todo o texto: as diversas formas com que o termo 'imaginação' pode ser empregado. Desde já, neste epílogo reiterativo, o autor pontua quais foram as formas dominantes de emprego do termo. A esse propósito, temos a imaginação imitativa ou reprodutiva, vista em oposição à imaginação criativa ou construtiva (sobretudo de imagens, apressa-se em enfatizar o autor).
Para dar conta dos diversos sentidos do termo (e suas possíveis reviravoltas), Mecchia começa sua explanação incumbindo-se de fazer uma espécie de exegese do verbete 'Imagination' escrito por Voltaire para a Encyclopédie de Diderot e D'Alembert. Já neste texto o autor vislumbra a 'ambiguidade e amplitude' do termo 'imaginação'.
Segundo Mecchia, apesar de Voltaire não abordar todo o espectro cultural francês e inglês de seu tempo, o artigo da Encyclopédie consegue estabelecer as pontes necessárias entre a imaginação e a possibilidade da produção do conhecimento, bem como demarcar o processo imaginativo como conditio sine qua non para o florescimento do trabalho artístico.
De acordo com o autor, Voltaire aproxima, sem contrapor, duas noções: a imaginação enquanto faculdade exclusivamente visual e a sua função abstrativa. Como consequências práticas, temos que o artigo contempla e discute o estatuto e o modo de funcionamento da imaginação em relação à noção de 'imagem', 'visão' etc.; assume a função cognitiva da imaginação; e identifica a faculdade da imaginação com o pilar da produção artística.
Observa o autor, haver certa identificação não resolvida entre imagem-visão-pensamento-linguagem, ou seja, entre o seu caráter cognitivo e a sua função abstrativa, que cabe uma melhor explicação. Assim, para lograr esse intento, o método de interpretação de textos a ser utilizado, principalmente nos casos em que um mesmo autor se cerca de acepções heterogêneas do termo 'imaginação', deve encontrar a sua validade em postulados mais gerais da cultura (ora, a imaginação não foi sempre a mesma).
Ainda centrando-se na Encyclopédie, o autor pondera que Voltaire condicionou a imaginação, no que tange ao seu papel no processo de produção do conhecimento, a uma relação de dependência para com a memória, como se ela fosse tão somente uma reiteração do passado, valorizando não a sua capacidade de produção, mas de contribuição para a existência do conhecimento. No entanto, quando Voltaire fala da imaginação em seu uso no campo artístico, 'polemicamente' ele exclui a tese de uma imaginação apenas visual. Esta possibilidade seria interessante apenas no momento de organização da experiência vivida.
Assim, segundo o autor, há uma oscilação entre a 'imaginação' enquanto capacidade abstrativa e a 'imaginação' enquanto reprodução passiva da experiência sensível. Ao fim e ao cabo da Encyclopédie, a imaginação termina por ser relegada ao campo artístico. Este casamento arte-imaginação implica em um divórcio entre a imaginação e o conhecimento positivo. Na melhor das hipóteses, considera-se ser de natureza distinta a imaginação utilizada no processo de conhecimento. Desta forma, a imaginação no campo da arte passa a ser identificada cada vez mais com o 'irracional', a 'fantasia', a 'quimera'. E nem adiantou uma figura tão eminente quanto a de Kant reivindicar, em sua Crítica da Faculdade de Julgar, o estabelecimento de um vínculo entre arte e conhecimento que permitisse a compreensão da experiência estética enquanto experiência cognitiva. Nos séculos XVIII e XIX, em se tratando da experiência estética, a cognição apenas foi tratada como “conhecimento intuito” ou “conhecimento do individual” do “singular”. O plural caiu no ocaso.
Assim, no último bloco do texto, com o intuito de discutir a que preço as teorias estéticas do século XIX puderam admitir ou refutar a tese da relação imaginação-arte e, por conseguinte, intentar uma recuperação dos valores cognitivos da obra de arte, o autor estabelece uma discussão com a estética italiana, mas precisamente com a tradição Croce-Della Volpe (termo, segundo ele, paradoxal, por englobar autores tão díspares).
Se, por um lado, Croce projetou uma autonomia do momento estético, através da identificação com o instante da intuição-expressão, por outro lado, Della Volpe considerou ser mister a apreciação, no processo de engendramento da obra estética, do componente intelectual enquanto tal. Em outras palavras, Della Volpe, fazendo jus ao seu materialismo dialético, objetivava recuperar o caráter cognitivo da produção e fruição artística. De acordo com o autor, mesmo negando, mais do que Croce, o vínculo imaginação-intuição-arte, por se deveras limitativo, Della Volpe não conseguiu se desfazer do problema de qual seria realmente o papel da arte dentro de uma determinada teoria do conhecimento e a ulterior necessidade de especificar este papel, evitando o risco de o confinar a um gueto artístico ou de fazer ressurgir o componente do 'irracional' enquanto natureza específica da imaginação na experiência estética.
Em verdade, pondera o autor, a preocupação de toda a estética italiana pós-idealista gira em torno da tentativa de recuperar a especificidade da obra de arte enquanto tal, evitando desta forma a utilização de categorias do espírito para a explicação da trama artística. Assim, sintetiza o autor, a condenação da imaginação a nível estético implica tão somente a assunção de uma das acepções do termo no espectro cultural do Ocidente: aquela em que a imaginação é concebida em termos de oposição à qualquer estrutura organizativa, esta vista como sinônimo de intelectualidade.
Portanto, as vicissitudes e as intercorrências vividas pela 'imaginação' estão em conformidade à esfera de atuação que os vários autores ofertaram à noção. E essa é uma história cheia de percalços, reviravoltas e surpresas. Assim, para fincar últimos exemplos, se, por um lado, um autor como Arnheim propõe novamente o privilegiar da percepção visual em nível conceitual e em nível artístico, por outro, um epistemólogo do quilate de Bachelard, revive em suas páginas a tentativa de um renascimento de algo como um logos da imaginação.
2 comentários:
Quem tiver interesse em aprofundar [por favor, não se esqueçam dos coletes salva-vidas, pelamordedeus!!!!] a discussão sobre a imaginação no sentido de imitação, vale a pena ler Michael Taussig [Mimesis and Alterity:A Particular History of the Senses. New York & London: Routledge, 1993].
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